°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Quarta-feira, Junho 04, 2008

Estou pensando em fazer uma panfletagem este fim de semana numa festa rave. Isto foi o que escrevi:

Olá amigos e amigas!
Sou psicóloga em formação e decidi fazer uma intervenção de “redução de danos” diante da complicada situação em que se encontra o ambiente das festas rave no Estado de São Paulo.
Se você está lendo isso é porque, de alguma maneira, você conhece esta situação, seja como atuante, seja como observador. Portanto, aí vão alguns toques de coração e com muito carinho:
- Quando você está “muito loco”, com os olhos revirando, se “mordendo” excessivamente, sem conseguir manter o equilíbrio, sem conseguir enxergar devidamente, perdendo seus pertences, agindo impulsivamente, gritando, sem conseguir entender nada, suando em excesso, vomitando, caindo... Isto quer dizer que você “passou da conta”.
- Para quem está vendo isso de fora é uma visão dos infernos: a impressão da aparência da pessoa neste estado é de que está tendo convulsões, passando muito mal, parecendo desesperado e decadente, infeliz consigo próprio e, portanto, em fuga de si mesmo.
- Se for esse seu caso (infeliz consigo mesmo e em fuga), o uso de psicoativos como o ecstasy pode se tornar um problema, o que eu chamo de “uso preocupante”. Não necessariamente isso quer dizer que você é viciado, apenas que você pode estar “em sofrimento”. Neste caso, um acompanhamento psicológico é altamente recomendável, pois além de cuidar desta questão é uma ótima oportunidade de se conhecer melhor.
- Está certo que o ambiente da festa rave é lugar de liberdade, mas quando a sua liberdade interfere na dos outros é hora de rever seus conceitos! A pessoa excessivamente “frita” não é engraçado como seus amigos podem dar a entender. Pelo contrário, é triste e esteticamente agressivo. Experimente se filmar quando estiver “daquele jeito” e assista depois, com seriedade. Aquele comportamento realmente traduz quem você é? Você gostaria de se relacionar com uma pessoa que se permite a tal estado de degradação? “Passar da conta” e ficar transfigurado é atitude irresponsável e desrespeitosa com todas as outras pessoas que vieram na festa para se divertir, e não para se odiar.
- Estados alterados de consciência podem ser excelentes ferramentas de aprendizado e espiritualidade. O contato com a natureza e a coletividade da pista de dança pode proporcionar experiências únicas, e os aprendizados obtidos através delas podem e devem ser transportados para a “vida real”.
- O ecstasy é chamado de “droga do amor” não é à toa. Por causa da tempestade de serotonina que seu cérebro sofre durante a ação do MDMA, às vezes você pode sentir que ama muito seus amigos, a Terra, ou até mesmo desconhecidos. Ao contrário do que você possa pensar, este amor É REAL e você pode resgatar este sentimento a hora que quiser, mesmo sem estar sob o efeito. Uma vez aprendido o caminho, não tem erro!!!
- Seu corpo em movimento também proporciona experiências sem precedentes! Limitá-lo a passinhos e movimentos estereotipados toda vez que se dança é um desperdício de energia e de oportunidade. Experimente libertar seu corpo e tentar novos movimentos! Descubra o seu estilo e você entenderá o verdadeiro significado da palavra TRANSE!
- É dever da organização da festa fornecer recipientes de lixo suficientes e geralmente eles tentam cumprir esta obrigação. Agora só falta você cumprir a sua! Garrafas e latas no chão da pista provocam acidentes e impossibilitam os mais “desencanados” de tirarem seus calçados e “bombarem” tranquilamente. Olha o respeito aí de novo!
- Festa bonita é festa com gente feliz! Ta mordendo muito? Sorria! Esse é o melhor método de relaxamento dos músculos da mandíbula e diminui um pouco aquela maldita dor no dia seguinte.
- Passou da conta? Vai comer, tomar um suco, passear pelo mato, deitar... Pode ser que existam coisas muito mais interessantes e construtivas em outras regiões da festa. Atreva-se a conversar com pessoas que te chamem a atenção, coisas mágicas podem acontecer (não necessariamente no sentido sexual!). Lembre-se que a maioria das mulheres gosta de ser respeitada e pode ter certeza que quando ela estiver afim ela vai dar algum sinal. Caso contrário, não use uma abordagem muito “agressiva”! Nós não costumamos gostar deste tipo de coisa!
- O “ácido” ou LSD também proporciona experiências pessoais e espirituais incríveis, não apenas ataques de riso! A introspecção sob o efeito é ferramenta poderosíssima de auto-conhecimento e conexão com o Todo. Aproveite!
- Portanto lembre-se: Gente bonita não é só gente que usa calça Diesel e sim gente feliz! Não deixe que a droga domine seu corpo, você é quem domina ele!
- E mais uma coisa: se estiver dirigindo, não abuse! Peça para algum amigo ficar “de boa” se hoje for seu dia de pisar na jaca! Ou pelo menos dá uma dormida até se sentir 100% para dirigir.
Obrigada pela atenção! Meu objetivo é orientar amorosamente e melhorar o ambiente para todos nós!

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:


Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

atualizando...

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:


Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Segue abaixo o resumo e a conclusão do meu trabalho de conclusão de curso. Quem tiver interesse em ler a pesquisa inteira, é só pedir que eu envio por email.

PADRÃO IRREAL: AS IMAGENS DO CORPO DA MULHER NA MÍDIA MANIPULADAS DIGITALMENTE E SUA INFLUÊNCIA NA SUBJETIVIDADE FEMININA

RESUMO

Inspirada no vídeo “Evolution”, da “Campanha pela real Beleza” da Dove, esta pesquisa tem como objetivo analisar como o uso da imagem do corpo da mulher, alterada através das técnicas de manipulação digital de fotografias em ensaios de moda e campanhas publicitárias, influencia a subjetividade de mulheres que atuam como modelos profissionalmente. O impacto da divulgação do culto ao corpo perfeito que a mídia exerce sobre as mulheres é abordado nesta pesquisa a partir da análise de como a publicidade retrata o corpo feminino, e transforma-o em uma hiper-realidade de perfeição, criando desejos e fantasias impossíveis de serem alcançados. As imagens digitais são uma nova forma de representar o mundo e o indivíduo, e as mídias contemporâneas se aproveitam desta oportunidade, pela flexibilidade que a fotografia digital proporciona para a criação de novas realidades. A pesquisa busca na história da beleza feminina os motivos pelos quais as mulheres sofrem na busca exaustiva pelo padrão de beleza estabelecido pela mídia. Foi realizada uma entrevista e enviados questionários pela internet para a coleta de relatos de vivências das modelos. A análise qualitativa dos dados destacou a presença velada do tema nos discursos dos sujeitos, revelando a influência destas imagens no conceito de beleza que as mulheres têm de si mesmas e de outras também. O retoque digital de fotografias é amplamente usado no mundo publicitário, e as modelos sabem disso. Mesmo assim, o desejo dessas mulheres ainda é alimentado com imagens de corpos que dão a ilusão de serem reais por sua verossimilhança, mas que perdem toda sua concretude na tela do retocador.

Considerações Finais

A influência das imagens desses corpos femininos retocados digitalmente que a mídia veicula é notadamente presente nos discursos das entrevistadas, levando-nos a concluir que estas imagens influenciam não só o conceito de beleza que as mulheres têm de si mesmas, mas das outras mulheres também. As maneiras como essas imagens influenciam a subjetividade dessas mulheres vão desde a auto-aceitação das formas do próprio corpo, até o relacionamento social entre mulheres e com o sexo oposto e, no caso das modelos, na realização profissional. Além disso, estas imagens muitas vezes servem de base e referência para aprimoramentos na própria aparência para essas modelos, o que nos parece preocupante diante da impossibilidade de realização do desejo, que pode acarretar inúmeras frustrações.
Se a maioria das mulheres (não-modelos) já sofre para tentar atingir o padrão de beleza imposto pela mídia sem o conhecimento aprofundado de todo o processo de produção daquela imagem perfeita, mulheres como a entrevistada F., que têm o conhecimento de todo este processo, sofrem não só pela busca em si, mas pelo o fato de terem o conhecimento de que se busca o irreal, o inatingível.
Para essa maioria de mulheres sofredoras em sua eterna busca pela perfeição, estar bonita e em forma trás benefícios para sua auto-estima que estão vinculados à atratividade, “competição” com outras mulheres e a auto-aceitação na frente do espelho. A verdade é que não se espera dessa maioria que sejam perfeitas, irretocáveis, exemplos de beleza. Já para as modelos profissionais, a perfeição é a premissa para o sucesso, não deixando espaço para o que, para a maioria, poderia ser considero mero detalhe, e que para as modelos são tidos como imperfeições.
Pudemos observar a partir das entrevistas que a profissão escolhida por estas mulheres é fonte de sofrimento que muitas vezes pode ir além do sofrimento de simplesmente não ser bela. Se a aparência e a beleza são os instrumentos primordiais de trabalho dessas mulheres, suas subjetividades estão diretamente ligadas a estes aspectos. Assim sendo, quando existe algum insucesso na conquista de um trabalho, este interfere diretamente na subjetividade destas garotas, que acabam se sentindo insuficientes e frustradas, entregando na mão de profissionais do retoque o poder de decidir o que é ou não adequado ou perfeito em seus próprios corpos, muitas vezes as levando a buscas exageradas por tal padrão.
Percebemos que as entrevistadas fazem uma caracterização do que seria uma mulher bonita através da perspectiva de uma imagem saudável, independentemente do estado real de saúde da modelo retratada, mas pela impressão de saúde que a imagem passa, não considerando o retoque digital como elemento crucial da retratação publicitária. Se a imagem do corpo saudável na publicidade é a de uma pele luminosa, cabelos fortes e músculos torneados, a das modelos, na realidade, passa bem longe disso. Só uma sessão intensa de retoques na textura da pele e do cabelo e na iluminação das curvas – que não existem – adicionam à aparência naturalmente opaca das modelos um aspecto artificialmente saudável que elas demonstraram valorizarem tanto. Além do aspecto saudável, outro fator característico de uma mulher bela para as entrevistadas é a atitude e a personalidade, o que supera a imagem congelada da foto, transportando o conceito de beleza das entrevistadas para além da imagem.
Notamos que as entrevistadas evitaram esboçar qualquer tipo de angústia ou outro afeto referente à própria aparência, mascarando o valor que dão para suas aparências atrás de atribuições consideradas socialmente superiores, como a personalidade e a atitude, em detrimento da reflexão e crítica quanto a sua responsabilidade como veículo desses padrões, que a mídia expressa através do corpo delas. A constante, porém velada preocupação dessas modelos por sua própria aparência anula qualquer possibilidade de reflexão sobre o tema, pois refletir pode gerar uma frustração, ou culpa pela realidade, e como elas mesmas colocaram em seus discursos, para a mulher ser bonita ela tem que ser feliz consigo mesma, e refletir sobre a própria situação pode tirá-las desta posição confortável que elas acreditam ocupar.
A separação entre maioria e minoria nas entrevistas ficou bem delineada nos discursos. A maioria seria composta pelas mulheres comuns, ou não-modelos, ou ainda como uma das entrevistadas colocou, “pessoas normais”. Então, o que pudemos entender do discurso de algumas entrevistadas é que a maioria das mulheres está fora do padrão de beleza imposto pela mídia e a minoria - modelos e mulheres com poder aquisitivo para tanto - consegue atingir estes padrões. A primeira hipótese por nós levantada quanto a isso se referia ao fato de que conquistar essa beleza expressada nas imagens retocadas da mídia era uma questão de tempo e dinheiro, e, portanto, mulheres com alto por aquisitivo se incluiriam nessa minoria delimitada pelas entrevistadas. Ao nos aprofundarmos na análise dos discursos, constatamos que algumas delas não têm consciência de que este padrão analisado durante a pesquisa é ilusório e pouco arraigado ao real e a possibilidade de sua concretização no próprio corpo, impossível. Mesmo com possibilidade financeira para o acesso a cirurgias plásticas, métodos de emagrecimento e cosméticos de última geração, a mulher que se espelha na fotografia digitalmente manipulada nunca chega à perfeição estabelecida por aquela imagem, mas movimenta um mercado milionário, que supomos sustentar a divulgação deste padrão impossível, alimentando o desejo dessas mulheres com imagens de corpos que dão a ilusão de serem reais por sua verossimilhança, mas que perdem toda sua concretude na tela do retocador.
Ao focar todas suas preocupações e energias na busca do aperfeiçoamento individual da aparência, as mulheres que consomem essas imagens adulteradas alimentam o sistema individualista que o capitalismo implementou em nossa sociedade, empobrecendo o caráter social que é inerente ao ser humano. Ao se basear num padrão de beleza para classificar a si mesma e às pessoas a sua volta, essas mulheres podem até anular a existência do outro, quando este se afasta do que é considerado belo.
Constatamos, portanto, que o poder da publicidade extrapola o campo do consumo de mercadorias, instalando-se na subjetividade feminina através da criação de desejos e fantasias relacionados à aquisição do corpo perfeito como modo de conquista de espaço e privilégios na sociedade. A conquista do corpo perfeito passa a adquirir status de passaporte para as posições mais elevadas da sociedade. O corpo perfeito das fotografias retocadas na verdade simboliza o sonho de ver e ser visto nas altas rodas, o sonho de ser referência e regra, de receber toda a atenção e o reconhecimento relegado somente aos “deuses” da mídia.
A imagem do corpo perfeito, retocado, desmaterializado, é o símbolo do não-sofrimento, do equilíbrio divino entre ser e parecer, a representação visual do que poderia ser a felicidade. Enfim, essas imagens da perfeição são tão valorizadas e desejadas, que nos dá a entender que na verdade o que se busca não é simplesmente o corpo perfeito, mas a total ausência de sofrimento, frustração, dor, separação. O objetivo final nessa busca do corpo que não existe remete à utopia de um mundo sem os conflitos que a sociedade vive naturalmente, mas que está constantemente em movimento de fuga disto.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:


Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Este texto é inaugural de uma série que pretendo fazer de contos infantis para adultos. Espero que se divirtam.

A mulher que não podia se olhar no espelho

Era uma vez uma mulher que não podia se olhar no espelho:
- É, eu não posso me olhar no espelho.
Mas não era só no espelho que ela não podia se olhar:
- Sim, não só no espelho, mas em qualquer coisa que reflita minha imagem: Vidros, metais, superfície da água, testa de homem careca...
Por causa disso a mulher não podia fazer uma série de coisas:
- É verdade. Eu não posso dirigir, nem olhar vitrines, ou ir na academia, tampouco namorar homens carecas e muito menos espremer uma espinha por mim mesma.
Desde de pequena ela tinha esse problema. Seus pais descobriram isso quando ela tinha cerca de dois anos, que é a época em que as crianças começam a notar os espelhos e já começam a discernir a imagem refletida naquela lisa e fria superfície de si mesmas.
- Quando ela tinha uns dois anos de idade nós encontramos ela caída no chão, dormindo profundamente bem em frente ao espelho do closet do nosso quarto.
Para evitar esse súbito acesso de sono que aconteceu seguidas vezes antes que constatassem a fonte do problema, os pais da mulher apelavam para inúmeros subterfúgios:
- Quando agente percebeu que o problema eram os espelhos, tomei algumas providências no intuito de manter nossa filha acordada. Minha primeira providência foi cobrir todos os espelhos da casa com cortinas. Quem quisesse se olhar teria que levantar os panos.
As conseqüências deste triste mal começaram já desde cedo.
- Ela não podia escovar os dentes sozinha se olhando no espelho, como toda pessoa normal. Nem podia apreciar as roupinhas novas que a minha mulher comprava pra ela. Também não podia andar na rua olhando os carros estacionados no meio-fio, pois caía no sono no mesmo instante.
Um belo dia os pais resolveram levá-la a um psiquiatra especializado em fobias.
- O médico nos disse que ela tinha fobia aguda de espelhos com reação narcoléptica anti-onírica, sei lá o que isso quer dizer. O que acontecia era que se ela visse o próprio reflexo ela caía na hora, dormindo um sono sem sonhos, e nunca lembrava o que tinha acontecido depois.
Ainda se ela sonhasse, tudo bem. Mas quando caía no sono, era um sono meio inútil, sem produção mental nenhuma, sem imagens, sem emoções.
- Parecia que ela se refugiava sempre que se via.
Quando a mulher que não podia se ver no espelho cresceu, ela já havia se acostumado com sua condição, e não via grandes problemas em ser a mulher que não podia se olhar no espelho. Já morando em sua própria casa, construiu seu pequeno universo irreflexo de acordo com suas necessidades especiais. Sua pia do banheiro localizava-se bem debaixo de uma janela, e enquanto realizava seus rituais matinais, olhava o movimento da rua lá em baixo.
- Mesmo na minha condição, consegui construir uma carreira razoável. Sou especialista em revelação fotográfica manual. Me adaptei bem a este ambiente pois é sempre escuro e não sobra nenhuma oportunidade para refrações de luz em superfícies refletoras.
Para cuidar de sua aparência ela tirava fotos de si mesma. Mas enquanto o advento da fotografia digital não chegava, era muito mais complicado:
- Quando eu tinha cerca de onze anos meu pai me deu minha primeira câmera fotográfica. Eu pedia para ele tirar fotos para eu poder ver meu cabelo. No meu primeiro bailinho da escola minha mãe e eu fizemos uma maratona de loja em loja durante duas semanas, experimentando vestidinhos e tirando fotos, para ver qual roupa eu usaria.
O lance da revelação das fotos começou se tornar um problema quando a mulher começou a experimentar uma demanda de intervalos menores entre o tirar a foto e analisar o resultado.
- Foi por isso que, aos treze anos, eu entrei num curso de fotografia com o objetivo de aprender a revelar. Meu pai havia me prometido uma sala-escura no banheirinho de empregada do apartamento. Desde então eu fiquei craque em revelação e consegui me firmar no mercado. Sinto muito orgulho disso, muito mesmo, orgulho demais...
Sim, sim. Como você pode observar, a mulher começou a ter muito orgulho de si mesma, muito mesmo, orgulho demais.
- Na verdade, nós, como pais dela, não podemos fazer grandes críticas. Mas a verdade é que ela sempre foi orgulhosa demais, metida mesmo. Minha mulher falava às vezes, de noite na cama, que ela era egocêntrica, seja lá o que isso quer dizer.
À esta altura da história devemos admitir que a situação da mulher que não podia se olhar no espelho não era nada fácil. No entanto, a mulher que não podia se olhar no espelho se olhava a todo instante. Nunca conseguia permanecer num relacionamento por muito tempo. E por mais incrível que pareça, não era por causa de sua peculiar condição:
- Eu namorei a mulher por alguns meses apenas. À princípio ela me parecia bela, e sua condição não atrapalhava em nada nosso relacionamento, mas eu desisti por não me conformar como uma mulher que não pode se ver no espelho seja tão auto-centrada.
Na questão de seus relacionamentos, muitas histórias embaraçosas cruzaram seu caminho.
- Como naquela vez em que levei ela num motel para uma noite romântica regada à espumante e morangos. Reservei a melhor suíte. Queria mimar ela. Mas assim que ela entrou no quarto do motel já percebi sua tensão.
- Eu nunca havia estado num quarto de motel. Achei tudo muito lindo e romântico. A cama em forma de coração, a champanhe, os morangos. Quando fui experimentar a cama apaguei.
Desinformada, a mulher que não podia se olhar no espelho estava no paraíso do reflexo. Ao se ver no espelho do teto, dormiu instantaneamente. E o que seria uma noite de amor memorável e com direito e pedido de casamento transformou-se em mais um branco em sua mente.
- Talvez eu seja muito areia pro caminhão dele, porque ele nunca mais me procurou.
A mulher que não se olhava no espelho se achava. Não no sentido literal da palavra, mas no sentido coloquial. Ela se achava a última bolacha do pacote, tinha plena convicção de que era tão linda quanto a Gisele e tão inteligente quanto Simone de Beauvoir.
- Eu não ligo de ter tido tantos relacionamentos fracassados. A fila tem que andar. Não foi culpa minha esses relacionamentos terem terminado, foi culpa deles.
Era sempre culpa deles. Culpa dos pais, culpa da professora, culpa do cara que não sabia pegar direito no seu cabelo. A mulher que não se olhava no espelho achava que o mundo girava à sua volta.
Um dia a mulher notou uma estranha protuberância num local pouco adequado em seu corpo. Na região dos "países baixos", bem na curvinha do encontro de sua nádega esquerda com a esquina da avenida São João em frente à padaria havia uma espécie de espinha, ou furúnculo, ou um alien encubado.
- Como eu resolveria esse problema? Eu não tenho namorado, e não pedirei aos meus pais para averiguarem minha caverninha... Tentei tirar fotos, mas a escuridão é tanta, é tudo tão vasto e profundo e misterioso lá...
O jeito era pegar um espelho. Era questão de vida ou morte:
- Então eu fui até a farmácia da esquina e comprei um espelho. O cara da farmácia deve ter estranhado quando eu pedi que não me mostrasse o espelho.
O funcionário da farmácia já havia ouvido a história da mulher pentelha que morava no edifício Girassol, lá da esquina. Quando a estranha mulher que atendia pediu que enfiasse rapidamente o espelho no saco de papel, ele pediu um minuto e entrou pela porta onde lia-se "Somente funcionários".
- Eu entrei correndo e chamei todo mundo para ver a mulher que não podia se olhar no espelho. Meus colegas se espreitavam na fresta da porta enquanto eu chacoalhava o espelho na frente dela, e ela proliferava palavrões escabrosos. Não tivemos a oportunidade de vê-la transformar-se na loira do banheiro, mas foi o suficiente para comprovar a história que eu tinha contado e ninguém acreditava.
À essa altura a lenda da mulher que não se olhava no espelho já havia tomado moldes de lenda urbana, e em vez de narcolepsia, a mulher possuía um alter-ego assassino e cadavérico.
Chegando em casa a mulher rumava para o que seria o momento mais importante de sua vida.
Tirou as roupas e sentou na cama com o pacote da farmácia na mão. Seu coração palpitava. Espalhou suas pernas por todo o ambiente. Naquele momento suas pernas pareciam tão extensas quanto o rio São Francisco. Tateando dentro do pacote ela identificou o lado do espelho que refletia. A superfície fria a lisa indicava seu fim, e seu começo. Seus pêlos da nuca arrepiaram.
- É agora ou nunca.
Era hora de ver-se, desbravar seu interior.
Removendo o espelho do pacote com a face voltada para baixo, a mulher que não podia se olhar no espelho virou sua cabeça para o lado direito, franzindo a testa, desviando como quem desvia de um cheiro ruim.
Agora com as pernas para o alto, a mulher tentava mirar no alien encubado numa esperança vã de que se ela simplesmente apontasse o espelho para a região afetada o alien desapareceria como um passe de mágica.
- Mas não é isso que acontece na minha história.
O que acontece é que o simples apontar do espelho não funciona, então ela decide encarar a verdade.
Numa pose meio Kama-sutra-de-bruços-com-leve-contorção-de-pescoço e braços que iam e vinham a mulher apontou o espelho e olhou.
Mas o que ela viu não foi uma brotoeja avermelhada esperando para ser espremida e sim uma placa de sinalização.
- "vire à direita" dizia a placa, com uma seta apontada para a entrada de um abismo.
- Ok, Ok, eu pensei. Vamos lá.
A mulher que não podia se olhar no espelho pela primeira vez na vida se olhava sem cair no sono. O objetivo de se olhar naquele momento passou de ser uma preocupação séptica para se tornar uma expedição rumo ao desconhecido. Ela seria a primeira mulher a mergulhar num abismo dentro de seu próprio corpo em toda a história da espeleologia.
Então ela foi, ou melhor, ela olhou, e na entrada da caverna milhares de rebarbas de pedra e carne adornavam a escuridão úmida de sua selva de pêlos. Sua paisagem interna era magnífica, sentia-se descobrindo o diamante mais valioso da floresta do Congo.
A verdade se revelou suave. Sua beleza era de carne e profunda como a flauta de um Sufi. Sentiu-se bela e ao mesmo tempo tétrica. Sua exploração mal havia começado e ela já sentia que era hora de parar.
- Depois do torpor todo eu comecei a lembrar o que eu estava fazendo ali. Quando notei o espelho na mão soltei-o rapidamente.O espelho se partiu, e uma estrela se formou em seu centro. Eu não tinha mais medo de mim, ou de minha natureza, e olhar no espelho não foi mais uma dificuldade pra mim. Eu percebi o mundo a minha volta à partir do meu centro, e agora eu me sinto pequena, e com vontade de pedir desculpas pra todo mundo. Eu entendi que o meu medo do meu próprio reflexo era como uma reação contrária a minha superficialidade. Meu reflexo reflete, e eu acho que na verdade eu não queria refletir sobre nada. Minha anestesia acabou se transformando em minha dor.
Agora eu posso dizer que aquela imagem no espelho, mesmo não sendo real, é sim uma representação de mim, e mim é algo pequeno demais.
Moral da história: às vezes é preciso olhar dentro para enxergar o que está fora.

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Quinta-feira, Julho 05, 2007

Me fala que você me conhece

A vida da praça é de passagem. As pessoas simplesmente passam, todo dia. Você acredita conhecer as pessoas que cruza pelo seu dia-a-dia, mas a verdade é que você nunca pára para conversar realmente com ninguém.
Na minha praça a vida é ativa. E variada. Sua fauna é predominantemente canina, com seus passarinhos servindo apenas de alegoria ou presa para os cães enclausurados nos apartamentos ao redor.
A população da praça alcança uma larga escala de idades. Tem crianças, adolescentes, adultos e velhos, todos passando, com seus cães ou suas cadeiras de roda carentes de rampas de acesso.
As crianças estão sempre acompanhadas, seja pelos pais, tios, irmãos, ou pelas babás de mamães pouco funcionais que não pegam seus filhos no colo ou não empurram o carrinho pela praça. As crianças gostam da minha cadela. Minha cadela adora as crianças, e pula nelas sem escrúpulos, lambendo e abanando seu rabinho sem parar.
Os clubes ao redor trazem muitos adolescentes, não importando a hora do dia. De tarde se esparramam pelos bancos em grandes grupos. Conversam alto, riem alto, e ficam em silêncio quando passo com a minha cachorrinha. Os adolescentes não conversam, eles apenas falam de si mesmos.
Os adultos compõem o cenário mais variado, não apresentando grandes padrões, a não ser o padrão de educação e gentileza, marca que permeia o bairro por mais estranho que possa parecer nas ruas de São Paulo. Os adultos homens aproveitam a oportunidade canina para olhar seu decote ou sua bunda quando você abaixa para pegar o cocô do cão. Os adultos porteiros/seguranças/vigias não ficam atrás, mas estes parecem mais interessados no cão em si do que em mim, ou pelo menos aparentam, mas pode ser que a técnica já esteja tão desenvolvida que o dissimular do descaramento passe despercebido pelas donas de cachorro do bairro. As adultas mulheres gostam de conversar um pouco, mas como o resto, passam correndo, ou para levar o cão de volta pra casa, ou para voltar para o escritório depois do descanso no banco da praça.
Os velhos são uma atração à parte. Me sinto particularmente atraída pela população da terceira idade da praça.
Dona Bete mora sozinha no prédio em frente ao meu e tem um poodle marrom chamado Bruno. Ela é muito simpática e gosta de bater um papo. Não me permite que a chame de senhora. Extremamente lúcida e independente, o passeio diário na praça parece ser seu ponto alto do dia, e ela costuma passar horas com Bruno no banco bem em frente da entrada do meu prédio, e todo mundo pára pra conversar um pouco com ela. Acho que foi a maneira que ela descobriu de acabar um pouco com a solidão de quem já viveu mais do que a maioria.
Tem um senhor, desses bem carrancudos e todo branquinho, que passeia com seu poodle também todo branquinho, e não gosta muito de papo. Ele fica um pouco tenso quando a Pilica se aproxima de seu cão, e sempre eu sorrio e faço alguma brincadeira, mas deste mato já percebi que não sai cachorro.
Tem um outro velho, esse na cadeira de rodas, que passeia de vez em quando com suas enfermeiras e fisioterapeutas. É possível notar que este sofreu um derrame com seqüelas graves, e que não gosta de cachorro. Quando venho em sua direção, ele se encolhe na cadeira, cercado de belas mocinhas que riem e falam: Ih... bem o senhor que não gosta de cachorros... Pilica não tem distinção, ela cumprimenta goste ou não de cachorros. Uma cheiradinha no pé de pantufas e ela está pronta para virar a próxima esquina.
Agora, o que mais me impressionou e por isso resolvi escrever este texto é a Dona Beatriz.
A dona Beatriz aparentemente tem Alzeimer. Ela está na cadeira de rodas, tem duas enfermeiras, não sorri, e nunca falou comigo. Mas hoje foi diferente.
De longe eu vinha da rua que termina na praça com minha cadelinha, esperando que ela fizesse um cocô logo para que eu voltasse pra casa. Nada de cocô.
De longe, dona Beatriz me viu, e eu percebi que ela apontava para mim. Resolvi ir até ela, na esperança de conversar, pela primeira vez.
Quando me aproximei, desesperada ela agarrou minha mão. Vi em seus olhos o desespero de quem não se lembra nem de quem é. Sem nenhum dano de linguagem, dona Beatriz diz: Me fala que você me conhece. Você me conhece?
Eu respondo que nós sempre nos encontramos quando passeamos pela praça, todo dia. Portanto eu a conheço da praça.
Ela diz desesperadamente que a enfermeira dela disse pra ela que não a conhecia. Eu entendo que provavelmente em sua confusão tenha criado esta idéia.
Ela perguntou se eu morava com ela. Eu disse que não, mas que era vizinha, apontando para a sacada do meu apartamento.
Dou minha mão para dona Beatriz. Ela a segura ansiosamente, seu queixo bate por causa da falta de controle dos músculos.
Ela perguntou se eu iria na casa dela, ou ela iria na minha. A esta altura, a enfermeira parecia constrangida e começou a responder por ela. Resolvi sentar no chão, tirei as luvas dela, e comecei a tocá-la, já que com pacientes de Alzeimer às vezes o toque é a única coisa que lhes resta.
Muito do que ela falou não fez sentido, mas eu senti o desespero que ela sentia em querer que eu a conhecesse. Pelo jeito ela já não deve lembrar de ninguém, nem dela mesma, então o que lhe resta é sair por aí perguntando quem ela é.
Ela me fez prometer que amanhã eu iria encontrar ela e diria que a conhecia. O mais estranho é que ela disse exatamente assim: Então amanhã quando você me encontrar você me diz que me conhece? Me diz quem eu sou?
Quem nos diz quem somos nós? Imagine o pesadelo de não se ter acesso a mais nenhuma lembrança. E é claro que são as lembranças os principais indícios de quem nós somos. E como faz dona Beatriz? Como ela acorda todo dia? Será que todo dia é como se fosse a primeira vez? Se ela olha no espelho, é aquele reflexo vazio e irreal que diz quem ela é?
Me diz que você me conhece. Meu blog não me diz quem eu sou. Meus pais também não, nem o Gui, nem meus amigos, nem a sociedade. Ora, nem eu me conheço, nem depois de seis anos de terapia eu me conheço. Na verdade, demorou a metade desse tempo em terapia pra eu poder admitir que eu não me conheço. Será que na verdade alguém se conhece mesmo? Se sim, que grandes emoções teria a vida se você se conhece? Se você não se surpreende consigo mesmo?
Eu acho que conhecer não é nem relativo, é impossível. Nós conhecemos as coisas em tantos níveis diferentes, ou em camadas, ou em etapas... Nunca se chega ao cerne das coisas. Aliás, como Einstein já havia dito, quanto mais se conhece mais se constata a nossa ignorância.
Acho que quando agente afirma que agente conhece profundamente algo ou alguém estamos nos enganado, colocando barreiras e limites para a nossa capacidade de mergulhar. É claro que existem pessoas que conhecem mais ou menos sobre um assunto ou pessoa, mas ninguém conhece absolutamente tudo de alguma coisa em específico. Admitir a ignorância é um desafio, mas é uma conquista quando realizado. Infelizmente são poucos os momentos em que realmente eu sinto que não conheço algo, mas quando isso acontece, nossa, quanto aprendizado.
E afinal, pra quê estamos aqui senão pra isso, não?

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Sábado, Maio 19, 2007

A matemática persiste em aparecer a todo instante em minha vida.
Por exemplo: não me canso de me surpreender com o fato de que a soma "bom haxixe" + "boa música" x (multiplicado por) "Dirigir pelo trânsito de São Paulo" sempre resulta (=) em Inspiração. Ou como minha amiga Daniele costuma grafar, "Ins.piração".
Para explicar melhor está lógica aritmética, recorrerei ao recurso narrativo de sempre, interpelado pelas minhas "considerações pessoais acerca da realidade".
Esta historieta começa assim:
Tenho como um valor em minha vida que uma das coisas mais gostosas é quando, depois de passar o dia inteiro com uma música na cabeça, na hora em que eu decido escutá-la, acabo por constatar que ela, de fato, é melhor ainda do que aquela versão mental que ficou tocando o dia inteiro na sua trilha sonora minha cabeça. É verdade que muitas vezes o que acaba acontecendo é o contrário: a música que ficou na minha cabeça é do Belchior, e escutá-la só pioraria a situação. Muitas outras vezes acontece de a música que fica na minha cabeça é a trilha sonora do jornal da rádio BandNews, aí é que complica, pois é aquela música "entre-meio", que não tem começo nem fim, é só um BG (musica de back ground) de baixa qualidade.
Em meio a estes devaneios, eu conto uma história. A história da música que ficou na minha cabeça hoje, que diferente de Belchior ou BandNews, é música sem letra e sem lógica. Bem, pelo menos sem lógica aparente. Voltamos à matemática a seguir.
Pois bem, é uma música de um projeto que se chama Exploding Plastix (www.xplodingplastix.com), e tem um estilo de som que só tenho capacidade para classificar como música eletrônica, ou no máximo como IDM (intelligent dance music).
E lá estava eu, tentando cantar uma música que não tem letra. E fiquei... e fiquei... me pegando a toda hora nos momentos de mais distração ou de mais automação cantarolando o único segmento cantarolável da música, lembrando mais da sensação do que do próprio som.
Então, chegada a hora de ir para a faculdade, me preparo já imaginando o caminho pela frente: dois pegas num baseado de haxixe antes de ir. O suficiente pra viajar pelas ruas de São Paulo sem ficar passando mal nem distraída demais com as luzes que geralmente atraem minha atenção.
Pois bem, entro no carro e ligo o som: BandNews maldita! Aquela BG, e seu locutor ansioso anunciando "126 quilômetros de trânsito neste começo de noite na cidade de São Paulo! A média normal pro horário é de 98!". - Sus.piro - . Sempre problemas! Eu vim preparada pra isso. Escuto alguns segundos de BG e locutor ansioso antes de lembrar da música, de novo.
Não perco tempo. Antes mesmo do primeiro engarrafamento, pego correndo minha disqueteira do Bob Esponja e corro atrás do Exploding Plastix. Engraçado, é o primeiro CD que eu vejo, e olha que eu abri a disqueteira bem no meio, aleatoriamente. O universo "cons.pira" para que eu ouça você, musiquinha.
E lá vou eu, procurando a Track no player. Achei, é a oito. Começa. É... realmente a música é boa... Nossa é boa mesmo! É boa demais! E daí em diante agente acaba esquecendo de avaliar a qualidade e a técnica do artista, e as imagens mentais ocupam o lugar do raciocínio.
Olho para os prédios. As formas retas do concreto parecem emanar as batidas que eu ouço. Enquanto o trânsito começa a dar sinais de fluidez, as janelas desses gigantes refletem as luzes dos faróis formando gráficos equalizantes, passeando pelas faces das construções no ritmo da batida, absolutamente descompassada e maluca, imitando o ritmo do próprio trânsito da cidade.
Do estimulo visual do caminho que sigo, transporto-me para minhas próprias fantasias, mais ou menos sempre iguais, de eu mesma dançando ao som destas músicas que trilham minha trilha pelas ruas de São Paulo. É tão intensa, que sinto realmente meu corpo dançar. Ele dança por dentro, e fica inevitável arriscar uns balanços e chacoalhos, que me constrangem quando sou flagrada por algum motorista vizinho enxerido.
Da pista de dança da minha imaginação, volto novamente para o racional. Agora penso em escrever. É sempre assim. Eu escrevo mentalmente tudo de curioso que me ocorre, e muitas dessas histórias nunca terminam se realizando neste singelo blog.
Esta eu não podia perder. Eu tinha muitas coisas na cabeça. Algumas já ficaram pra trás à alguns parágrafos.
Agora, volto à matemática.
Já é de conhecimento, até mesmo científico, que existe uma relação profunda entre música e matemática. Existem inúmeros trabalhos acadêmicos, desde muito antes do surgimento da música eletrônica, que relacionam e comprovam que a base que constrói a música é, invariavelmente, matemática. Desde a música indiana, extremamente complexa em sua célula rítmica, até mesmo os grandes clássico da musica erudita, como Bach ou Wagner.
Ouvindo a música eletrônica que eu chamaria de ¿tradicional¿, essa relação fica evidente, com seus compassos "quadradinhos", e suas progressões elementais bem pontuadas. Já no estilo de música eletrônica que eu particularmente aprecio, o 4x4 que se espera de um "poperô" fica defasado, e as progressões são mais descontruções e reconstruções do que qualquer outra coisa.
Desta maneira fica claro que a aritmética da tradicional música "de pista" vira brincadeira de criança perto dos cálculos da probabilidade do caos usado nas variações, variando a cada Tempo. Caos este muito bem organizado, já que, no fim das contas, mesmo dando essa ilusão de bagunça total, ao final dos contados oito Tempos da batida, você pode com certeza esperar uma virada, mas no próximo Tempo da música sabe-se lá Deus o que irá acontecer.
E é por isso que eu AMO essa nova música eletrônica, como o IDM, a Free eletrônica e todos esses outros gêneros que embarcaram no experimentalismo comercial, cheios de glitchs e clicks e barulhos de CD riscado pulando. Acho incrível a maneira como esses artistas fazem músicas belas e altamente estimulantes a partir do que, para todo mundo (inclusive pra mim) é considerado erro, um defeito, como a própria palavra "glitch" quer dizer.
Pra mim, essas músicas são matemática pura. Mas em vez de números estéreis e sem nenhuma personalidade, os números desses sons têm toda uma gama de tonalidades, mexem com a minha fantasia, desafiam a minha ingênua tentativa de prever e dominar o que vem a diante.
Eu sinto que esses artistas têm total propriedade em sua obra. Você não manipula o que está ouvindo, porque mesmo que você conheça bem aquela música nunca sabe exatamente o que está por vir no próximo segundo da canção.
Enfim. Eu ouvi a música quatro vezes. A primeira vez quando pus o CD no player, a segunda quando na ordem natural das tracks do álbum, a terceira depois que ouvi a segunda, e a quarta quando eu voltava pra casa, quase na entrada da garagem.
Um fato curioso (e inútil) é que quando eu estou ouvindo uma música que me envolve naquele momento no carro, ao chegar ao meu destino eu espero a música terminar, vivendo aquele momento intensamente, do começo ao fim, até mesmo aquela depressãozinha quando termina meu videoclipe mental.
E foi assim que esta história terminou: com sua blogueira Alice*, já careta depois da aula, inspiradíssima, sentada no frio deserto de sua garagem subterrânea, esperando a música terminar.
Quem quiser ouvir a música, me mande um email no psyraca@yahoo.com.br . Eu envio ela pra você.

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Terça-feira, Abril 10, 2007

meu porquinho da índia morreu...

tibúrcio

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Neighborhood

Um universo de janelas invade meu imaginário. Vejo janelas como telas nas paredes dos prédios que me rodeiam.
Uma praça rodeada de prédios não consegue se ocultar no anonimato de suas árvores, e a comunicação entre a singela comunidade de porteiros já cria categorias para seus ilustres e indiscretos moradores.
À esquerda do meu prédio há um edifício muito envidraçado. Uma construção charmosa, que me revela apenas a face de seus quartos, com janelões que escorrem até o chão.
No oitavo andar desse edifício, mora a peladona. Não se engane com o ¿dona¿. ¿Dona¿ é doce na boca dos funcionários de prédio de classe média-alta. Mas na hora de se referir à vizinha desavisada, é ¿A pela-dona do oitavo andar¿. Eles já a conhecem, ela já faz parte da ¿família¿, tanto que quando aparece nua saindo do banho, sentada na cama de pernas abertas e sei lá mais o quê, eles já nem olham com tanta empolgação, e quando comentamos o acontecimento, eles já se referem a ela com certo desdenho, tipo: ¿ah, é, ela tá sempre peladona...¿.
De noite a visão é ainda mais espetacular. Como TVs em perspectiva, assisto de camarote o cotidiano banal de meus vizinhos. E alguns deles já têm movimentos categorizados na minha mente.
Na janela da cozinha vejo outras cozinhas de outros apartamentos. Apartamentos que para mim são só cozinhas... e áreas de serviço. Às vezes esses lares se resumem (do meu ponto de vista) a salas de TV ou quartos semi-habitados.
Nos apartamentos-cozinha, empregadas lavam, usam seus uniformes, cuidam do cachorro, dormem no serviço. De suas janelas provavelmente assistem minha cozinha, e provavelmente devem se impressionar com as cenas de despudorado exibicionismo. Shame on me... ou não. Talvez os agarramentos sejam um de seus poucos prazeres do cotidiano. Dormindo em quartos que não são seus, usando roupas que não escolheram. Talvez eu e meu marido sejamos sua novela, seu big brother, a fofoca pra fazer no dia seguinte quando as empregadas se encontram na pracinha passeando os cachorrinhos plumosos de suas patroas, mais plumosas ainda.
Da minha janela, do meu escritório, eu olho pra baixo, e vejo a pracinha. A pracinha tem bancos e no meio dela jogam migalhas de sei-lá-o-que para atrair pássaros. Eles vêm, e vêm também até a minha janela, de vez em quando. É como um milagre, aqueles passarinhos, que não duvido sejam filhotes, pairando despreocupados no recuo da janela. Digo milagre pois da minha janela vejo as duas pistas da marginal pinheiros, com seus caminhões barulhentos e cheiro de esgoto constantes. Uma vez vi um beija-flor, mas eu sua grande maioria são pardais descabelados.
Vez ou outra um outro milagre se repete: um segundo vizinho observador me flagra no meu voyeurismo. E timidamente me escondo na penumbra, tornando-me mais um ornamento da sala, talvez uma planta ou uma luminária. Só as sombras são capazes de nos tornar outras figuras. Assustadores ou celestiais, os seres da noite se ocultam na morfe do mancebo ou nas sombras dos galhos do eucalipto dançando na parede branca do quarto.
Um garoto, que não deve ter mais do que 11 anos se diverte apontando um laser pointer contra minhas janelas. Na sala, minhas janelas são janelões, ornados por eiras que não constituem uma sacada, mas promovem grande visibilidade aos interessados na vida alheia. Paranóica, eu grito da janela, e o coitado, apavorado, talvez com a bronca que vai receber de sua mãe, se aproveita da noite, e se esconde atrás do biombo da sala escura, e então eu o perco de vista. Corre para a outra janela, agora a do quarto. E com a luz completamente apagada começa a passear sua luzinha vermelha pelo armário da minha TV. ¿Filho da Puta¿, eu penso. E resolvo apagar a luz. O Gui, com uma idéia magnífica, pega sua super câmera fotográfica e tira várias fotos. O flash assusta o menino, mas agora temos a verdade documentada.
Acredito que ele tenha ficado com tanto medo que nunca mais fará isso. Ou não. Delícia é essa inconseqüência juvenil, como quando eu ia visitar minha vó no oitavo andar de um dos únicos prédios de Pindamonhangaba e atirava bexigas d¿água no povo que andava pelas ruas do centro de noite.
Da minha janela vejo telas nas paredes dos prédios, como as telas de minhas lembranças fragmentadas, unindo-se umas às outras apenas pela fantasia de uma criança que quis crescer cedo demais.

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Terça-feira, Abril 03, 2007

Deep... quem foi sabe, nem vou descrever...
Participação especialíssima de Daniele Andrade: http://www.fotolog.com/hirid_vock -------- É ver pra crer... Nóis sabe o que faiz...


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Sexta-feira, Março 30, 2007

Eterno - Carlos Drummond de Andrade

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

¿ O que é eterno, Yayá Lindinha?
¿ Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

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Sábado, Março 03, 2007

No shopping Eldorado tem uma loja no subsolo que se chama "casinha pequenina". É uma loja de miniaturas, e as duas funcionárias da loja são duas anãs. Que conveniente!

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escrevi um texto e ficaria em feliz em receber recados

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Sexta-feira, Março 02, 2007

Era uma vez uma menina que não conseguia dormir sem sonhar.
Sonhar era seu sonho, seu grande objetivo.
Todas as noites, aproximando-se da sagrada hora, se preparava como quem se prepara para O Grande Encontro.
Sem muita consistência, realizava seu pequeno ritual sanitário. Retirava suas lentes de contato, lavava o rosto, escovava os dentes (ou não), usava a privada. No espelho se despedia procurando imperfeições em seu rosto. Mas sem adeus, apenas um singelo ¿até¿, banal como em toda rotina, e mesmo assim, com toda beleza de uma ação sem grandes reflexões.
Preparava-se para o sono em sua cama. Toda noite deitava na pilha de travesseiros e pensava que devia comprar um travesseiro novo, mais firme. Estava sempre com dor no pescoço. Dois travesseiros para a cabeça, um em cima do outro, um terceiro para abraçar, como seu médico havia recomendado, para manter os ombros alinhados, evitando que estes seguissem sua rota natural, de grudar um no outro quando deitada de lado, fazendo rugas em seu belo colo e apertando seus pequenos seios.
Um pouco de TV, seu sonífero natural. Algum desenho animado para adultos ou um SitCom americano desses com risada no fundo.
Sem enxergar bem o que se passa na tela, ela vai ficando primeiro entediada, depois relaxada, e quando as piscadas entre uma risada e outra tornam-se mais longas e vertiginosas, ela desiste e desliga no controle remoto.
Silêncio relativo. Os caminhões ainda passam na marginal. Apenas o ventilador embala o sono dessa onironauta descompromissada. Primeiro, vem o limbo. Imagens sem sentido e sem consistência, mais uma vez.
Ela segue por um corredor de uma antiga casa portuguesa, acha que está em Paraty. Um belo espelho orna uma parede rústica. Anjinhos rococó de madeira vigiam quem observa a si mesmo no espelho. Ela se percebe se observando. Ela se vê no espelho. Não sente mais vontade de respirar. Sente alguém atrás dela. Alguém a conta telepaticamente que ela está se vendo no espelho, e que isso é muito raro num sonho... Sonho? Estaria ela sonhando?
Desperta. Uma primeira respirada a devolve ao seu leito. Um pouco de terror. Não se mexe. O coração palpitando. Foi o primeiro sonho. Mas ela estava acordada, praticamente. Tenta acordar seu companheiro, que dorme de barriga pra cima, com meia boca fechada meia aberta, os lábios colados de secura do sono mal-respirado, o ar entrando em conflito, boca ou nariz, nariz ou boca? Ela se irrita com o barulho, e com o fato de nem a queda da bastilha o acordar.
Sente medo. Vê formas no escuro. Lembra da Gestalt. Lembra de fantasmas. Passa da racionalidade a total precariedade em questão de segundos. Morcegos esfumaçados sobrevoam sua cama. ¿É imaginação¿, ela imagina. Agarra-se ao braço do companheiro desacordado na esperança de assim trazer um pouco de realidade para sua noite. ¿Algo está fora de mim¿, ela pensa. E se agarra a este pensamento para prosseguir com coragem.
Mais uma vez, o som do ventilador, caminhões lá fora, o ronquinho da boca/nariz. Agora, com um pouco de medo e curiosidade, não consegue pegar no sono. Procura imagens mentais relaxantes. Um lago, patos, cisnes. Aqueles seres emplumados flutuando em sua relaxada busca por comida. Na beira do lago alimenta os patos deslizantes. Na superfície da água seus rastros confundem a solidez do fluido aquático. Muito relaxante. Muito suave. Patos deslizando... E o sono vem, enterrando fundo seu corpo contra o colchão.
Agora ela sonha que está na casa de sua mãe. Ao contrário do que vocês possam pensar, não é nada relaxante. A situação na casa de seus pais em sua vida desperta se configura na simbologia que vai surgindo. Pouca movimentação, pouca conversa, pouco sentimento. Um belo lugar perde toda sua graça bucólica diante do desafio da convivência. Com pouca convicção, ela aguarda um acontecimento, o que a deixa tensa. Sem perceber que está sonhando, nem questiona o fato de a própria geografia do terreno onde se encontra estar completamente fora do contexto real da casa real.
Na varanda, que parece a da casa de um pescador, na encosta do morro, um helicóptero tenta pousar, sem nenhum sucesso. As lâminas cortam o varal, fazendo um som de tiros que perfuram um papelão. As lâminas cortam portas e mesas, e ela, se encolhendo num canto, pensa que vai morrer, bem embaixo de uma mesa pobre. O medo da morte predomina, e com o coração na boca ela pensa que não é hora, que não pode ser verdade.
E não é. É sonho. E ela acorda recusando-se a usar a palavra ¿pesadelo¿ para nomear o que pode ser, enfim, uma mensagem.
No fim de semana seguinte vai visitar os pais. Faz dois meses que não os visita, e acaba indo meio sem vontade. Lá, seus sonhos simplesmente não ocorrem, pois toda a energia para a aventura noturna acaba sendo consumida pela tensão habitual que se cria na família.
Ela sente que precisa se justificar. Afinal, uma filha não deve ficar dois meses sem visitar os pais sem motivo. A pressão para que uma declaração razoável seja feita é grande, e ela, depois de dias tentando desvendar toda aquela carga emocional das lâminas do helicóptero, dá sua resposta: MEDO. ¿Não vim porque tive medo¿.
Ela tem medo. Essa é a conclusão. A mensagem do sonho é clara. O medo de enfrentar os pais, os dramas e picuinhas da típica família de classe média, ao qual, mesmo sem querer, na verdade não faz mais parte.
O medo da morte, no sonho, é um medo exagerado, simbolizado. A morte, na verdade, é a morte psíquica: assassinar os pais, construir novos valores... ¿Eu vou morrer se eu deixar de ser filha¿.
Quando agente dorme, não é que acaba um mundo e começa outro. Quando agente dorme, o mundo se completa, e a realidade desordenada que nos invade pelos nossos precários sentidos se ordena. É a ordem do inconsciente.

Eu sonho que morro
O medo é real
mas o dia seguinte ainda é menos tangente.

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Segunda-feira, Janeiro 01, 2007



Feliz ano novo! De cabelo novo!

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Terça-feira, Dezembro 12, 2006

comentarios estao funcionando!

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Óleo de Fígado de Bacalhau

Esta nova geração... Esta das crianças que voltam do medico com recomendações especificas de dietas, esta do colesterol e triglicérides altíssimos por ingerirem quantidades inconcebíveis de gordura, conhecendo o cardápio do Mcdonalds de cor, de trás pra frente, em português e inglês, e tudo isso aos sete anos de idade...
Esta geração não conhece o grande dilema enfrentado por nós, magrelinhos de nascença, pernas de vareta, ou siriema, como meus coleguinhas me chamavam na escola.
Quem algum dia nesse nosso especial grupo de raquíticos não teve que engolir goela abaixo uma bela colherada de biotômico Fontoura, pois estava muito magrinho e não parecia saudável? A preocupação de nossas mães em colocar mais carne naqueles ossinhos tão frágeis e anêmicos tinha implicações plausíveis, sociais e psicológicas.
Eu, particularmente, era muito, muito magra mesmo. Além disso, eu era muito mais alta que meus colegas. Para pior a situação, eu era preta-rata-de-praia, usava biquininho fio-dental sem a parte de cima, o que deixa minha pele com uma marquinha de sol formidável, que mamãe gostava de exibir com orgulho, mesmo que sem a minha completa aprovação.
Era só ela ir numa loja de alguma amiga pra comprar roupas infantis que toda peruada do interior (que comprava sempre nas mesmas lojas, como se não existissem outras), se reunisse em volta da minha mãe para ouví-la falar de minhas façanhas. Eu era uma ¿menina prodígio¿... Bem, pelo menos meus pais talvez achassem isso, pois o meu incrível talento para falar palavrões escabrosos aos quatro anos de idade reunia uma boa audiência a minha volta, e todos riam de minhas gracinhas, inicialmente incentivadas por meu pai.
Pois bem, a menina prodígio, dos palavrões e piadinhas de adultos, ostentando aquela bela marquinha da qual ela nem tinha muita consciência, era exposta, literalmente, em muitas dessas oportunidades. É claro que eu odiava, queria enfiar a cara embaixo da pilhas de roupinhas tamanho 8/10 anos e dar descarga na minha mãe esgoto a baixo. Mas entenda: isso tudo foi para explicar como nos sujeitávamos aos caprichos dos nossos pais, e isso inclui os complementos alimentares.
Então, falava eu de biotômico Fontoura, mas a verdade é que eu nunca na minha vida senti o gosto daquela coisa preta nojenta. Hoje em dia lembro daquela garrafa com certa alegria, já que seu design era realmente ¿pharmacia¿, muito emblemático.
Eu, com meu esquizo-corpo magnífico, era tratada com outra maravilha da ciência da complementação alimentar: o Óleo de fígado de Bacalhau! Sim senhores! Apresento-lhes a maravilha complementar que abre o apetite, afinal de contas, essa menina precisa engordar, é tão magrinha, os colegas tiram sarro dela na escola, e ela chora que eles a chamaram de siriema. Taca óleo nela!
Enquanto muitos abominavam o tal Óleo, que quando vinha na versão engarrafada provocava ânsia de vômitos em alguns, em mim era puro êxtase. A minha versão do Óleo vinha em cápsulas transparentes amarelo-dourado. Eu, eu mesma, completamente ansiosa pela hora do Óleo, colocava a delicada cápsula vitral na boca, chupando seu exterior vigorosamente, sentindo aquele intenso e irresistível gosto de plástico de seu invólucro, até que, numa explosão de ansiedade pelo grande momento, mordia a cápsula, deixando aquele líquido viscoso descer garganta abaixo, mas não sem antes deliciar-me com aquele incrível sabor de... Óleo de Fígado de Bacalhau. Suntuoso, para não dizer orgástico.
Minha irmã, atordoada pela cena que se repetia todos os dias, fazia-se que ia vomitar, assim como meu irmão, que apenas tomava seu Taffuman-E, este sim que me fazia contorcer-me só de lembrar do cheiro.
E eu, impetuosa no meu objetivo, depois do pequeno milagre de sensações na minha boca, saia em direção a eles, bafejando pelo ar aquele cheiro maravilhoso dos litorais da Escandinávia, fazendo questão de arfar com toda força quando bem perto, na cara de quem fosse, para ver aquele nojo, aquela repulsa.
Aquilo me fazia sentir, além de valente, diferente. Diferente porque eu era a única pessoa no mundo que eu conhecia que gostava de morder a cápsula do Óleo de Baca para sentir todo o sabor e aroma de tal detestável coisa.
E o mais engraçado é que são quatro horas da manhã, e rolando na minha cama estava eu lembrando das comidas da minha infância, coisa de quem está de regime. Lembrei de uma maravilhosa maionese que existia, a única que existia que tinha um tubo de apertar, com o bico na parte de baixo para sair melhor. Eu adorava aquela maionese, sinto o cheiro dela até hoje. Seu sabor, sua cor, seu aroma... E foi aí que eu lembrei do tal Óleo de Fígado de Bacalhau. Como pode uma pessoa colocar duas coisas tão opostas em seu grupo de origem, no caso, dos alimentos, assim, tão no mesmo nível?
Eu acho que na verdade nosso julgamento do que é bom ou ruim quando somos crianças é muito mais valido, no sentido de que o que é bom é o que dá prazer e o que é ruim é o que não dá. Nada de marcas, de opiniões dos especialistas, ou o que a mãe disse que vai deixar os dentes mais fortes. Bom mesmo é miojo, refrigerante GINI de limão (alguém lembra?) e aquele arrozinho com agrião, azeite e limão que a minha fazia, às vezes com uma salada em forma de algum bichinho, pra eu me sentir mais próxima do meu próprio deleite fantasioso. Assim, a salada não era vitamina, minerais e beta-caroteno. Pra mim, a salada era a comida do coelho da páscoa, e assim eu comia e sonhava com seu rabo comprido e cintilante, que eu vislumbrei uma vez de canto de olho numa elétrica manha de domingo de páscoa perdido no tempo.

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Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Cachorrinho: focinho, rabinho, olhinho. Deito no chão; me dá um carinho?
Mamãe levanta e sai de fininho, mas eu não sou boba. Levanto e vou seguindo bem rapidinho.

Ração, carninha, ossinho. E de vez em quando, mais um carinho.
Durmo num cantinho, fecho meus olhinhos, ronco um pouquinho.

Latidos na rua, orelhas em pé. Elas são tortas, mas e daí? Sou linda assim mesmo.

Gosto da minha caminha, gosto da sua caminha. Você não deita na minha, mas eu adoro pular na sua, pra te lamber a cara pela manhã.

Minha casa é na cozinha. O chão é branco, as paredes são brancas, as cortinas são brancas. E eu, amarela. E verde de fome.

Não sei qual o motivo de tanto alarde. Na hora de fazer o xixi e o coco, o simples fato de acertar a mira nada complicada do papel espalhado no chão faz com que ela, ou ele, delirem. Nessa hora é bom. Tem pãozinho e mais carinho, e se eu ficar feliz demais, mais xixizinho.

Meus novos pais gostam de mim. Acho que eu gosto deles também. Quando tem carinho, especialmente na minha parte favorita, balanço as perninhas como de motoca, dando a partida. Qualquer sinal de carinho é hora de deitar. Barriga pra cima, pernas pro ar, e dando a partida na motoca. Ai delicia!

De noite é hora de dormir. Meu pai e minha mãe fecham a porta e eu fico sozinha na cozinha branca. Bate uma tristeza. Acho que nessa hora todos os cães presos nas cozinhas brancas de todo o mundo choram em coro, bem baixinho. Mas logo esquecem. Ainda tem muitos cheiros para serem cheirados e pulgas para serem coçadas. Eita vida difícil. Vida do cão!

Assinado: Pilica - vulgo Pili


PS: Minha parte favorita.

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Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Parabens pra mim.
Mais uma comemoraçao classe AAAAAAAAAAAAAAA.

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Quarta-feira, Novembro 01, 2006

ahhhh tá dando pau... quero migrar pro blogger beta. como eu faço?

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