Recebi esse texto do Luan. Não se foi ele que escreveu, mas está simplesmente demais.
O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos
os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e
conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente,
irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra
trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e
saímos da selva.
Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de
todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza!
Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental!
Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho
além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um
conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim.
Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto
ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa pa ra criar
lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda a
crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos
denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem
desculpa, não tem disfarce.
A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos.
Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do
tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade
universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos
ocultar. Somos animais!
Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das
conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo
cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as
putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso
divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo.
No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fá cil. O sujeito
simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia
embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e
andando.
Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a
agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou
um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um
pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito
tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas.
Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o
processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se
sempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um
buraco de segunda mão.
Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia:
cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em
pouco tempo a invenção de Walter, assim c omo suas iniciais, já podiam ser
vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido
solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades
e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia.
Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus
excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer
a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível,
bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que
covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para
não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o
secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos
antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um
arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que
deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis
higiênicos perfumados.
< BR>Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as
nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a
descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em
rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é
só uma questão de tempo.
Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do
mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda.
Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que
nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na
piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade,
reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o
tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da
floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as
baratas sobreviverão.
postado por: ..::Sagazzz::.. 12:57 PM
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