°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Terça-feira, Maio 30, 2006

12:00 AM
Ele está indo embora...
Depois de três semanas Marc está indo embora. Nem parece que foram três semanas, nem parece que foram mais de três anos desde aquele encontro no balancinho do playground da Biodelic milianos atrás.
Vou sentir saudades...
Vou sentir saudades de ouvir psytrance full on no máximo o dia inteiro. De comer nutella no sofá de noite. De fumar um baseado atrás do outro.
É verdade sim quem disse que quando esses hippies vieram acampar aqui em casa quem estava fazendo o favor eram eles e não eu. Sim eles fizeram um enorme favor pra mim. Me fizeram lembrar quem eu fui e quem eu ainda sou, mesmo com essa vida de burguês que eu levo. Cara, todo dia em tenho pensado em ir numa festa, numa pista, numa dança... Cara, até quando eu ouço aquela besteirinha de trance me dá uma vontadinha danada de sair pulando por aí, como era antigamente. Comecei a cavar umas fotos antigas, dos tempos da vibe, dos tempos da chapação... Ai como eu era... como eu era...



Ele vai embora, mas eu tenho que me lembrar de não esquecer. Eu tenho que lembrar como eu encantava, e como eu me encantava com tudo. Não quero mais aquela boca curvada pra baixo, de menosprezo por quem está passando pelo o que eu já passei. É uma atitude horrível e pretensiosa. E não é assim que eu me vejo, apesar de ser exatamente assim que eu ajo.
Eu quero olhar mais pra trás. Sem achar que eu tô tão lá na frente.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para l.o.u.c.o.s:


Sexta-feira, Maio 26, 2006

1:32 PM
E foi-se a segunda temporada de LOST...
Ontem vi os dois últimos capítulos, que passaram anteontem na gringa.
Agora só em setembro... Craaaaap!
Mas nossa, foram muito bons esses dois últimos, muito bons e muito aflitivos.
Cara, como os caras conseguem fazer algo virar uma coisa tão aditiva assim? Eu sonhei a noite inteira com LOST.
Agora só me resta esperar e ler tudo que eu acho na net sobre eles. O Lostpedia do Winkpedia, o hanso foundation e seu maravilhoso jogo de realidade alternativa... Nossa, vai ter pano pra manga até lá.
Agora vou ficando por aqui, nessa escotilha subterrânea esperando por John Locke!

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para l.o.u.c.o.s:


Segunda-feira, Maio 22, 2006

7:08 PM
Eu já comecei a escrever este post três vezes, apaguei tudo, e deixei pra mais tarde.
É incrível como quando a inspiração vem ela tem que ser registrada na hora. Agora já não consigo pensar em nada do que eu vivi naquele momento e queria contar pra vocês.
Este era pra ser uns dos posts top desse blog, e acho que a melhor maneira de começar a escrever quando não se tem inspiração pra isso é falar sobra a falta dela.
Já escrevi inúmeros posts sobre inspiração e sobre o passado e sobre haxixe e sobre música.
Este post é mais um desses... mas é um fato que todos esses assuntos, independente da ordem, hierarquia ou conotação, dá sempre muito pano pra manga, e muitas metaforas memoráveis.

O post a seguir segue da seguinte maneira:

1° - Era sábado, em São Paulo, o pior dia da semana em São Paulo. Não tem nada pra fazer sábado em São Paulo que você não pegue fila, seja pra estacionar, pra entrar, pra sair, de qualquer lugar. Mas estava nos meus planos sim, sair. Não pra balada, mas para arte. Neste fim de semana aconteceu mais uma virada cultural aqui, o que eu nunca tive coragem de conferir, me aventurar. Ainda não tenho, mas essa atração eu não ia perder.

Pois bem,

2° - O escritório do Gui aqui em casa é como um útero. Você se aninha à meia luz para fumar (cigarro, maconha, haxixe e outros...), ouvir música, ver filmes, vídeos e outras porcarias que ele baixa da internet. Tudo num pequeniníssimo ambiente, invadido por intermináveis e velhos livros que antes pertenceram ao avô dele, um intelectual fantástico, que infelizmente não conheci.
Pois bem, fui eu me aninhar a meia luz para mostrar pro Gui minhas mais recentes descobertas, o site The Hanso foundation, do LOST. Ficamos lá, navegando e conversando, enquanto Gui emitia silenciosos protestos por eu decidir sair sem ele para ver arte, com a Gabi e a Iná. A expressão era de frustração, e ciúmes, coisa não muito comum entre nós, mas eu abstraí sem dar chances de debate.

3° - O baseado...
Faz duas semanas que não acontece "o baseado". Estávamos fumando só merrecas, coisas que vaca come e chama de capim. Não dá nem pra fazer de conta que deu uma brisa. É o tal do baseado-placebo, só tem efeito psicológico. Até o Gui arrumar um maravilhoso haxixe, não é the best, mas nossa, coitadinha de mim, que não fumo nada, fiquei retardada no segundo pega. Ingênua, não percebi até que ponto estava nesse estadinho, quando fui me trocar para sair. Parecia que eu estava atrasada, pois tudo demorava tudo. Pra por a meia calça de lã, pra amarrar as botas, para passar o batom. Foram longos 7 minutos. Até aí tudo bem, eu tava tão entorpecida que não cheguei nem a ter muita consciência do que estava acontecendo, até eu descer pro carro e partir em direção da casa da Gabi.

4° - Como se fosse a primeira vez...
Entrei no carro, escolhi um Cd e saí. Denovo resolvi fazer o mesmo caminho que faço todo dia quando vou pra aqueles lados e fui.
O Cd, Yellowtone, que aliás recomendo, costuma agradar à todos os bons gostos. Mas dessa vez ouvir yellowtone foi diferente, como se fosse a primeira vez e como se o som fosse o melhor que eu já tivesse ouvido na vida. As batidas de bateria misturadas com samples de eletronica e distorções ardidas me levavam pelas ruas dos Jardins prestando muita atenção a todo o caminho, deslizando no asfalto novo da Gabriel, olhando para os espelhinhos do carro e notando os desenhos que a sujeira grudada neles formava. Fiz o mesmo caminho de todo dia como se fosse uma novidade, tudo era bom, e tudo era percebido.

Acho que o que acontece quando agente fuma maconha e derivados é que agente fica percebendo tudo muito mais atentamente, como se fosse a primeira vez mesmo, e isso faz com que a percepção do tempo fique totalmente distorcida, mais lenta, 15 minutos dura 40, com trilha sonora e efeitos especiais de fotografia.

5° - Foram os 15 minutos mais longos da minha vida. Não num mau sentido, como geralmente essa expressão é usada. Foi como uma experiência selfica, coisa que me fez lembar muito os primeiros anos em Campinas, minhas voltas de carro pela cidade chapada - A cidade chapada - Eram momentos em que eu ficava sozinha por opção, ouvindo exatamente o que eu queria ouvir, fazendo exatamente o que eu queria fazer e, principalmente, pensando exatamente no que queria pensar. Campinas era assim no começo. Eu vivia naqueles momentos o sonho de ser livre sem fazer absolutamente nada em especial. Apenas dirigir, fumar meu crivo, ouvir música e deitar minha mente naquele asfalto de interior.

A nostalgia nesse momento foi uma recarga nas baterias. Eu acordei para o bom passado, sem pesar pelo presente, sem desejar voltar. Mas pela primeira vez em muitos anos, eu lembrei das primeiras vezes em que me senti verdadeiramente livre e isso me faz sentir que tudo que aconteceu lá, tudo o que eu vivi, não foi nem um pouco em vão.

É uma pena que em São Paulo fumar um baseado e sair dirigindo não é assim uma coisa tão simples de se fazer. Fazia muito tempo que eu não fazia por medo do caos, porque fumar e ficar tensa no trânsito é uma bosta, de verdade.

Só faltou o Cd do The Verve e um pôr do sol maravilhoso daqueles, lá no observatório da Unicamp.

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Segunda-feira, Maio 08, 2006

7:30 PM
Hippies de verdade

Estou abrigando em minha casa desde quinta feira passada um casal de hippies da nova geração.
Não hippies como nós imaginamos, com roupas indianas e brincos feitos de fio de cobre. Neo Hippies. Trance freaks, como eles se auto-denominam.
Eles usam roupas psicodélicas cheia de cores gritantes. Andam com suas enormes mochilas onde carregam suas casas. Falam inúmeros idiomas. Trabalham seis meses pra juntar uma grana, depois saem pelo mundo atrás dos festivais.
Marc é sueco e dj de psytrance, especificamente full on. Sim, é verdade, não curto o som que ele toca. Mas isso não é nada, já que ele é uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci. Faz malabares maravilhosamente bem. É membro de carteirinha do raimbow gathering. Adora navegar na internet. Quando o conheci ele era vegan. Pra quem não conhece é assim: quando você é apenas vegetariano, você ainda come derivados do leite e coisas feitas com ovos e tal... Ele não comia nem pão de queijo. Era até engraçado pois uma vez comprei um vidro de doce de leite pra ele e quando dei ele leu "hum, leche... no, but thanks!". Bom, agora não é mais, pois quando se mora por um tempo na América do sul, fica impossível de achar Tofu na lojinha da esquina.
Caro é alemã. Ela é algo como nunca vi antes. Sua risada é cênica, ela devia ser um personagem de desenho animado. Sua cor predileta é roxo, portanto tudo que ela usa é roxo. E tem tara por cobertores. Ela disse que só no carro dela ela carrega 17 cobertores. Dá pra imaginar. É um prazer acordar de manhã com a escandalosa risada dela. É fã de vibradores. Me mostrou um site que é cliente. Os vibradores parecem brinquedos de criança. Acho que é por isso que ela gosta.
Eles são assim, viajam, arrumam um lugar pra ficar e a vida decide o resto. É incrível o nível de desprendimento deles, tudo está bom, dormem no chão de qualquer cozinha de algum maluco que os abriguem.
Eu imagino o quanto deve ser difícil viver assim, só na base da confiança no outro.
E por mais distante que isso esteja da realidade que eu vivo hoje, eles estarem aqui é como um revivamento das minhas fantasias de peter pan da época em que o que mais importava pra mim era a Vibe.
Conheci Marc no balancinho de um playground numa festa miadíssima do Neto Nasi. Nós trocamos emails, como sempre se faz numa rave. Quase nunca quando você troca emails com uma pessoa numa festa você fala com ela mais de uma vez. Mas o Marc é um cara que valoriza as amizades num outro nível. Continuamos nos falando pela internet durante anos. Fomos à algumas festas e festivais juntos, mas foi só. Mas sempre ficou aquela coisa meio subjetiva de amizade mais sincera, por mais que nunca tivéssemos convivido o suficiente para eu estar fazendo o que estou fazendo agora, cuidando deles como uma mãezona aqui.
É engraçado, mas aqui não tem Trance freaks como os da europa. Aqui é sempre a Cena que ganha os adeptos. Ser do Trance é uma escalada social rumo ao topo da evidência. O grande lance é falar que o namorado é dj, ou que você é organizador de festa, ou hostess, ou outras coisas do tipo. É como se o trance não tivesse alma. É exatamente a mesma coisa dentro e fora do trance. É sempre aquela competição pra ver quem tem o pau maior.
Eles devem me achar muito freak, porque eu sou a pessoa mais normal do mundo na convivência do dia -a -dia.

Desculpem pelo post inútil. Não precisa deixar um comment se não quiser...

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Quarta-feira, Maio 03, 2006

6:54 PM
Meio questionando...

Eu estava falando no messenger com minha amiga de infância Marjorie, quando ela comentou que adorava meu blog, e tinha curtido este ultimo post.
Eu, que nem sabia que ela lia meu blog, fiquei feliz.
É engraçado quando uma pessoa mais próxima de você lê seu blog e você nem sabia disso.
Ela disse que tinha encontrado um blog que às vezes se parecia com o meu. Um blog muito legal, por sinal bem melhor que o meu, eu achei. http://www.cha-tice.blogger.com.br/
Perguntei porque ela achava parecido, pois os últimos posts tavam mais com cara de conto, diferente do que eu faço aqui.
Ela disse: Marjorie - Abafa!! diz:
nao é de contos, ela anda nessa fase
Marjorie - Abafa!! diz:
teve fase que ela escrevia tipo vc
Marjorie - Abafa!! diz:
meio questionando...

Meio questionando... Meio questionando? Eu meio que questiono? Eu faço realmente isso? Vocês acham que eu questiono muito? Vocês acham que ficar escrevendo sobre meus questionamentos me leva a algum lugar? Será que eu sou assim o tempo todo? Questionando...questionando...

Tive épocas em que questionava menos, tive outras que questionei demais. Muitas perguntas levam à poucas respostas. As respostas estão todas aí, o grande lance é saber quais são as perguntas. Meio Jeopardy.
Quando faço uma pergunta adversa à teoria que o professor tá passando na sala, ele não gosta de responder. Porque será? Será que é porque ele não questiona a própria abordagem que ele adotou? Então, que validade tem esse conhecimento que ele tá me passando se ele mesmo não tem nenhum senso crítico quanto a isso?
A minha grande dificuldade em Psicologia é tomar uma decisão quanto à abordagem a seguir. Pra mim será uma missão quase impossível de cumprir, e eventualmente eu vou ter que me posicionar. Eu não consigo sem ter os meus questionamentos. Não consigo simplesmente concordar com tudo à cerca daquela ou dessa abordagem. Por que isso? Se eu fosse interpretar psicologicamente, eu diria que eu evito uma escolha com medo de abandonar minhas outras opções. Escolher é como tirar uma foto: você enquadra uma coisa e elimina todo o resto que está em volta. Ou será que não?
Talvez eu seja na verdade muito radical quanto à tomar decisões de uma maneira geral. Talvez não necessariamente você tenha que excluir todo o resto a partir do momento que escolhe uma ótica específica sobre determinada situação.
Então está aí o cerne da questão: Será que o motivo é mesmo que eu sou muito radical?
Minha psicóloga diz que eu apresento uma rigidez masculina massacrante nos meus discursos às vezes. Eu acho que quando essa coisa masculina vem à tona, eu meio que sou possuída por ela.
Tenho sonhado com fantasmas de homens muito fortes e másculos me "assombrando". Sonho também com leões que eu tenho que domar, fugir, afastar de mim. Seria então Fantasma = possessão do Masculino e Leões = aproximação da feminilidade?
A verdade é que eu sou constantemente invadida pelo meu inconsciente. Acho que não conheço alguém que sonhe tanto e lembre tão bem deles como eu. Se eu fosse pensar psicanaliticamente, isso significaria que eu sou uma pessoa que está com os contepudos psíquicos altamente reprimidos e com material recalcado querendo fugir pro meu ego às custas dos sonhos. Mas como eu tenho questões quanto isso, não posso concordar.
Não to querendo ser do contra, só tô meio questionando...

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