Como ver/Comover
Os minutos passam lentamente no trânsito. É quinta feira, quase cinco da tarde. Decido sair mais cedo para:
- Passar na lavanderia
- Ir à loja de sapatos
- Conversar com o cara do estacionamento
- Renovar os livros que retirei na biblioteca
Perto da Avenida Ibirapuera fica a loja de sapatos. Não havia necessidade de pegar a avenida em si, podendo eu ter ido por uma das paralelas. Mas como não lembrava se a loja ficava no primeiro ou no segundo quarteirão, decidi ir pela avenida, mesmo sabendo que a esta hora lá é tudo parado, cheio de ônibus e pedestres, rostos ambulantes, em trânsito no trânsito de São Paulo.
No cruzamento da Avenida Moaci o trânsito parou, e mesmo com sinal verde eu esperei antes da faixa de pedestres. Não gosto de fechar o cruzamento, sempre me chateia quando alguém faz isso e eu tenho que desviar.
Esperando o trânsito andar, sinal verde, eu parada, antes da faixa de pedestres. O dia está escuro. Vai chover. Está chovendo. Umas gotinhas caem no pára-brisa. Ligo aquele vai-e-vem. O sinal fecha. As pessoas que estavam esperando na calçada começam a atravessar. Sorte que eu parei antes da faixa.
Olhando distraidamente para os rostos em transito, ou em transição, eu vejo uma mãe. Sempre que pensamos em mãe, pensamos em mãe de propaganda da Natura, com seu lindo bebê no colo, ou com crianças correndo em volta, ou aquela mãe matrona, mama italiana. Ser mãe é padecer no paraíso. Pra essa mãe que eu vi não devia ser diferente. Ela olhava para sua filha com todo aquele brilho nos olhos de mãe-natura, mãe com crianças correndo em volta, mama italiana. Mas a filha dessa mãe estava numa cadeira de rodas. Não devia ter nem oito anos. Uma menina linda. Olhos vidrados e aparelhos de plástico acoplado nas pernas. As mãos em posição de esgrima. Eu conheço bem essa deficiência. Paralisia cerebral.
Talvez essa menina um dia fosse andar. Quem sabe. Com muito trabalho, fisioterapia e outras coisas mais que só uma mãe com muito dinheiro poderia pagar.
A menina parecia ter algum tipo de dano cognitivo. Olhava fixamente para o nada. Como que catatônica. Seu olhar distante me chamou a atenção. Olhei na mesma direção em que ela olhava, procurando o elefante alado que ela provavelmente pintava no céu com seus olhos de aquarela.
Nada. Apenas prédios e nuvens.
O sinal abriu. Aquele verde pescou meus olhos, o do sinal. O ônibus parado depois do sinal começou a andar.
Tenho que andar, pensei. A mãe, com a menina-pintora-de-elefantes-no-céu continuava olhando fixamente para coisa alguma.
Coitada, pensei. Ao mesmo tempo, achava que aquele estado devia ser morbidamente interessante.
Ao passar em cima da faixa de pedestres meu carro cruzou seu campo de visão. Seu olhar fixo no horizonte sem querer cruzou o meu, fixo no dela. Ela viu, pelo vidro do pára-brisa. Minha expressão era vaga. Talvez eu tivesse em minha cara uma expressão de quem chama por ela mentalmente. Acho que ela percebeu.
Quando viu que eu a via, havia em mim quase nenhuma esperança de alcançá-la. Minha alma apenas procurava. Sondei seu espectro, mamãe empurrando, elefantes alados no céu, gotinhas de chuva beijavam suas bochechas. É agora.
Agora ela viu. Não mais pintando no céu, ela pintava na minha alma. Meu coração transbordou enquanto sua cabecinha fazia um giro. Do alto, ela virou pra frente, e meu carro passou, e ela virou para o lado, depois o tronco acompanhou o movimento, girando junto, enquanto eu via seus olhos perderem-se no espelho retrovisor.
Um frio subiu pela minha barriga. Os pêlos do braço de pé. Lembrar daquele rosto ainda me faz sentir a mesma coisa. A primeira coisa que pensei é que ela deve ser especial. No mínimo, a reencarnação de Jesus Cristo, Buda, ou alguma coisa do tipo.
Queria saber como é a voz dela, se é que ela fala. Queria saber o som da sua risada, se o quarto dela tem fadinhas penduradas, se um anjo a protege de noite sentado na cabeceira de sua cama.
Naquele momento, algum sonho que eu tinha se realizou, por um milésimo de segundo. Ela viu, por um segundo, todas as vezes que eu ri e chorei, todos meus amores, todos meus encontros com Deus.
Naquele momento, uma parte de mim desceu, correu entre os carros, parou o tempo e a abraçou.
Quando eu dormir acho que ela vem me visitar. Ela vai me contar todos os segredos de sua meninice, e eu serei suas pernas e sua experiência. E nós caminharemos juntas pra sussurrar no ouvido de seus amigos anjos todas as cantigas de ninar que eu inventei só pra ela ouvir.
°Sagazz no Teatro Mágico°
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