Óleo de Fígado de Bacalhau
Esta nova geração... Esta das crianças que voltam do medico com recomendações especificas de dietas, esta do colesterol e triglicérides altíssimos por ingerirem quantidades inconcebíveis de gordura, conhecendo o cardápio do Mcdonalds de cor, de trás pra frente, em português e inglês, e tudo isso aos sete anos de idade...
Esta geração não conhece o grande dilema enfrentado por nós, magrelinhos de nascença, pernas de vareta, ou siriema, como meus coleguinhas me chamavam na escola.
Quem algum dia nesse nosso especial grupo de raquíticos não teve que engolir goela abaixo uma bela colherada de biotômico Fontoura, pois estava muito magrinho e não parecia saudável? A preocupação de nossas mães em colocar mais carne naqueles ossinhos tão frágeis e anêmicos tinha implicações plausíveis, sociais e psicológicas.
Eu, particularmente, era muito, muito magra mesmo. Além disso, eu era muito mais alta que meus colegas. Para pior a situação, eu era preta-rata-de-praia, usava biquininho fio-dental sem a parte de cima, o que deixa minha pele com uma marquinha de sol formidável, que mamãe gostava de exibir com orgulho, mesmo que sem a minha completa aprovação.
Era só ela ir numa loja de alguma amiga pra comprar roupas infantis que toda peruada do interior (que comprava sempre nas mesmas lojas, como se não existissem outras), se reunisse em volta da minha mãe para ouví-la falar de minhas façanhas. Eu era uma ¿menina prodígio¿... Bem, pelo menos meus pais talvez achassem isso, pois o meu incrível talento para falar palavrões escabrosos aos quatro anos de idade reunia uma boa audiência a minha volta, e todos riam de minhas gracinhas, inicialmente incentivadas por meu pai.
Pois bem, a menina prodígio, dos palavrões e piadinhas de adultos, ostentando aquela bela marquinha da qual ela nem tinha muita consciência, era exposta, literalmente, em muitas dessas oportunidades. É claro que eu odiava, queria enfiar a cara embaixo da pilhas de roupinhas tamanho 8/10 anos e dar descarga na minha mãe esgoto a baixo. Mas entenda: isso tudo foi para explicar como nos sujeitávamos aos caprichos dos nossos pais, e isso inclui os complementos alimentares.
Então, falava eu de biotômico Fontoura, mas a verdade é que eu nunca na minha vida senti o gosto daquela coisa preta nojenta. Hoje em dia lembro daquela garrafa com certa alegria, já que seu design era realmente ¿pharmacia¿, muito emblemático.
Eu, com meu esquizo-corpo magnífico, era tratada com outra maravilha da ciência da complementação alimentar: o Óleo de fígado de Bacalhau! Sim senhores! Apresento-lhes a maravilha complementar que abre o apetite, afinal de contas, essa menina precisa engordar, é tão magrinha, os colegas tiram sarro dela na escola, e ela chora que eles a chamaram de siriema. Taca óleo nela!
Enquanto muitos abominavam o tal Óleo, que quando vinha na versão engarrafada provocava ânsia de vômitos em alguns, em mim era puro êxtase. A minha versão do Óleo vinha em cápsulas transparentes amarelo-dourado. Eu, eu mesma, completamente ansiosa pela hora do Óleo, colocava a delicada cápsula vitral na boca, chupando seu exterior vigorosamente, sentindo aquele intenso e irresistível gosto de plástico de seu invólucro, até que, numa explosão de ansiedade pelo grande momento, mordia a cápsula, deixando aquele líquido viscoso descer garganta abaixo, mas não sem antes deliciar-me com aquele incrível sabor de... Óleo de Fígado de Bacalhau. Suntuoso, para não dizer orgástico.
Minha irmã, atordoada pela cena que se repetia todos os dias, fazia-se que ia vomitar, assim como meu irmão, que apenas tomava seu Taffuman-E, este sim que me fazia contorcer-me só de lembrar do cheiro.
E eu, impetuosa no meu objetivo, depois do pequeno milagre de sensações na minha boca, saia em direção a eles, bafejando pelo ar aquele cheiro maravilhoso dos litorais da Escandinávia, fazendo questão de arfar com toda força quando bem perto, na cara de quem fosse, para ver aquele nojo, aquela repulsa.
Aquilo me fazia sentir, além de valente, diferente. Diferente porque eu era a única pessoa no mundo que eu conhecia que gostava de morder a cápsula do Óleo de Baca para sentir todo o sabor e aroma de tal detestável coisa.
E o mais engraçado é que são quatro horas da manhã, e rolando na minha cama estava eu lembrando das comidas da minha infância, coisa de quem está de regime. Lembrei de uma maravilhosa maionese que existia, a única que existia que tinha um tubo de apertar, com o bico na parte de baixo para sair melhor. Eu adorava aquela maionese, sinto o cheiro dela até hoje. Seu sabor, sua cor, seu aroma... E foi aí que eu lembrei do tal Óleo de Fígado de Bacalhau. Como pode uma pessoa colocar duas coisas tão opostas em seu grupo de origem, no caso, dos alimentos, assim, tão no mesmo nível?
Eu acho que na verdade nosso julgamento do que é bom ou ruim quando somos crianças é muito mais valido, no sentido de que o que é bom é o que dá prazer e o que é ruim é o que não dá. Nada de marcas, de opiniões dos especialistas, ou o que a mãe disse que vai deixar os dentes mais fortes. Bom mesmo é miojo, refrigerante GINI de limão (alguém lembra?) e aquele arrozinho com agrião, azeite e limão que a minha fazia, às vezes com uma salada em forma de algum bichinho, pra eu me sentir mais próxima do meu próprio deleite fantasioso. Assim, a salada não era vitamina, minerais e beta-caroteno. Pra mim, a salada era a comida do coelho da páscoa, e assim eu comia e sonhava com seu rabo comprido e cintilante, que eu vislumbrei uma vez de canto de olho numa elétrica manha de domingo de páscoa perdido no tempo.
°Sagazz no Teatro Mágico°
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