Sexta-feira, Março 02, 2007
Era uma vez uma menina que não conseguia dormir sem sonhar.
Sonhar era seu sonho, seu grande objetivo.
Todas as noites, aproximando-se da sagrada hora, se preparava como quem se prepara para O Grande Encontro.
Sem muita consistência, realizava seu pequeno ritual sanitário. Retirava suas lentes de contato, lavava o rosto, escovava os dentes (ou não), usava a privada. No espelho se despedia procurando imperfeições em seu rosto. Mas sem adeus, apenas um singelo ¿até¿, banal como em toda rotina, e mesmo assim, com toda beleza de uma ação sem grandes reflexões.
Preparava-se para o sono em sua cama. Toda noite deitava na pilha de travesseiros e pensava que devia comprar um travesseiro novo, mais firme. Estava sempre com dor no pescoço. Dois travesseiros para a cabeça, um em cima do outro, um terceiro para abraçar, como seu médico havia recomendado, para manter os ombros alinhados, evitando que estes seguissem sua rota natural, de grudar um no outro quando deitada de lado, fazendo rugas em seu belo colo e apertando seus pequenos seios.
Um pouco de TV, seu sonífero natural. Algum desenho animado para adultos ou um SitCom americano desses com risada no fundo.
Sem enxergar bem o que se passa na tela, ela vai ficando primeiro entediada, depois relaxada, e quando as piscadas entre uma risada e outra tornam-se mais longas e vertiginosas, ela desiste e desliga no controle remoto.
Silêncio relativo. Os caminhões ainda passam na marginal. Apenas o ventilador embala o sono dessa onironauta descompromissada. Primeiro, vem o limbo. Imagens sem sentido e sem consistência, mais uma vez.
Ela segue por um corredor de uma antiga casa portuguesa, acha que está em Paraty. Um belo espelho orna uma parede rústica. Anjinhos rococó de madeira vigiam quem observa a si mesmo no espelho. Ela se percebe se observando. Ela se vê no espelho. Não sente mais vontade de respirar. Sente alguém atrás dela. Alguém a conta telepaticamente que ela está se vendo no espelho, e que isso é muito raro num sonho... Sonho? Estaria ela sonhando?
Desperta. Uma primeira respirada a devolve ao seu leito. Um pouco de terror. Não se mexe. O coração palpitando. Foi o primeiro sonho. Mas ela estava acordada, praticamente. Tenta acordar seu companheiro, que dorme de barriga pra cima, com meia boca fechada meia aberta, os lábios colados de secura do sono mal-respirado, o ar entrando em conflito, boca ou nariz, nariz ou boca? Ela se irrita com o barulho, e com o fato de nem a queda da bastilha o acordar.
Sente medo. Vê formas no escuro. Lembra da Gestalt. Lembra de fantasmas. Passa da racionalidade a total precariedade em questão de segundos. Morcegos esfumaçados sobrevoam sua cama. ¿É imaginação¿, ela imagina. Agarra-se ao braço do companheiro desacordado na esperança de assim trazer um pouco de realidade para sua noite. ¿Algo está fora de mim¿, ela pensa. E se agarra a este pensamento para prosseguir com coragem.
Mais uma vez, o som do ventilador, caminhões lá fora, o ronquinho da boca/nariz. Agora, com um pouco de medo e curiosidade, não consegue pegar no sono. Procura imagens mentais relaxantes. Um lago, patos, cisnes. Aqueles seres emplumados flutuando em sua relaxada busca por comida. Na beira do lago alimenta os patos deslizantes. Na superfície da água seus rastros confundem a solidez do fluido aquático. Muito relaxante. Muito suave. Patos deslizando... E o sono vem, enterrando fundo seu corpo contra o colchão.
Agora ela sonha que está na casa de sua mãe. Ao contrário do que vocês possam pensar, não é nada relaxante. A situação na casa de seus pais em sua vida desperta se configura na simbologia que vai surgindo. Pouca movimentação, pouca conversa, pouco sentimento. Um belo lugar perde toda sua graça bucólica diante do desafio da convivência. Com pouca convicção, ela aguarda um acontecimento, o que a deixa tensa. Sem perceber que está sonhando, nem questiona o fato de a própria geografia do terreno onde se encontra estar completamente fora do contexto real da casa real.
Na varanda, que parece a da casa de um pescador, na encosta do morro, um helicóptero tenta pousar, sem nenhum sucesso. As lâminas cortam o varal, fazendo um som de tiros que perfuram um papelão. As lâminas cortam portas e mesas, e ela, se encolhendo num canto, pensa que vai morrer, bem embaixo de uma mesa pobre. O medo da morte predomina, e com o coração na boca ela pensa que não é hora, que não pode ser verdade.
E não é. É sonho. E ela acorda recusando-se a usar a palavra ¿pesadelo¿ para nomear o que pode ser, enfim, uma mensagem.
No fim de semana seguinte vai visitar os pais. Faz dois meses que não os visita, e acaba indo meio sem vontade. Lá, seus sonhos simplesmente não ocorrem, pois toda a energia para a aventura noturna acaba sendo consumida pela tensão habitual que se cria na família.
Ela sente que precisa se justificar. Afinal, uma filha não deve ficar dois meses sem visitar os pais sem motivo. A pressão para que uma declaração razoável seja feita é grande, e ela, depois de dias tentando desvendar toda aquela carga emocional das lâminas do helicóptero, dá sua resposta: MEDO. ¿Não vim porque tive medo¿.
Ela tem medo. Essa é a conclusão. A mensagem do sonho é clara. O medo de enfrentar os pais, os dramas e picuinhas da típica família de classe média, ao qual, mesmo sem querer, na verdade não faz mais parte.
O medo da morte, no sonho, é um medo exagerado, simbolizado. A morte, na verdade, é a morte psíquica: assassinar os pais, construir novos valores... ¿Eu vou morrer se eu deixar de ser filha¿.
Quando agente dorme, não é que acaba um mundo e começa outro. Quando agente dorme, o mundo se completa, e a realidade desordenada que nos invade pelos nossos precários sentidos se ordena. É a ordem do inconsciente.
Eu sonho que morro
O medo é real
mas o dia seguinte ainda é menos tangente.
°Sagazz no Teatro Mágico°
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