°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Terça-feira, Abril 10, 2007

meu porquinho da índia morreu...

tibúrcio

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:


Neighborhood

Um universo de janelas invade meu imaginário. Vejo janelas como telas nas paredes dos prédios que me rodeiam.
Uma praça rodeada de prédios não consegue se ocultar no anonimato de suas árvores, e a comunicação entre a singela comunidade de porteiros já cria categorias para seus ilustres e indiscretos moradores.
À esquerda do meu prédio há um edifício muito envidraçado. Uma construção charmosa, que me revela apenas a face de seus quartos, com janelões que escorrem até o chão.
No oitavo andar desse edifício, mora a peladona. Não se engane com o ¿dona¿. ¿Dona¿ é doce na boca dos funcionários de prédio de classe média-alta. Mas na hora de se referir à vizinha desavisada, é ¿A pela-dona do oitavo andar¿. Eles já a conhecem, ela já faz parte da ¿família¿, tanto que quando aparece nua saindo do banho, sentada na cama de pernas abertas e sei lá mais o quê, eles já nem olham com tanta empolgação, e quando comentamos o acontecimento, eles já se referem a ela com certo desdenho, tipo: ¿ah, é, ela tá sempre peladona...¿.
De noite a visão é ainda mais espetacular. Como TVs em perspectiva, assisto de camarote o cotidiano banal de meus vizinhos. E alguns deles já têm movimentos categorizados na minha mente.
Na janela da cozinha vejo outras cozinhas de outros apartamentos. Apartamentos que para mim são só cozinhas... e áreas de serviço. Às vezes esses lares se resumem (do meu ponto de vista) a salas de TV ou quartos semi-habitados.
Nos apartamentos-cozinha, empregadas lavam, usam seus uniformes, cuidam do cachorro, dormem no serviço. De suas janelas provavelmente assistem minha cozinha, e provavelmente devem se impressionar com as cenas de despudorado exibicionismo. Shame on me... ou não. Talvez os agarramentos sejam um de seus poucos prazeres do cotidiano. Dormindo em quartos que não são seus, usando roupas que não escolheram. Talvez eu e meu marido sejamos sua novela, seu big brother, a fofoca pra fazer no dia seguinte quando as empregadas se encontram na pracinha passeando os cachorrinhos plumosos de suas patroas, mais plumosas ainda.
Da minha janela, do meu escritório, eu olho pra baixo, e vejo a pracinha. A pracinha tem bancos e no meio dela jogam migalhas de sei-lá-o-que para atrair pássaros. Eles vêm, e vêm também até a minha janela, de vez em quando. É como um milagre, aqueles passarinhos, que não duvido sejam filhotes, pairando despreocupados no recuo da janela. Digo milagre pois da minha janela vejo as duas pistas da marginal pinheiros, com seus caminhões barulhentos e cheiro de esgoto constantes. Uma vez vi um beija-flor, mas eu sua grande maioria são pardais descabelados.
Vez ou outra um outro milagre se repete: um segundo vizinho observador me flagra no meu voyeurismo. E timidamente me escondo na penumbra, tornando-me mais um ornamento da sala, talvez uma planta ou uma luminária. Só as sombras são capazes de nos tornar outras figuras. Assustadores ou celestiais, os seres da noite se ocultam na morfe do mancebo ou nas sombras dos galhos do eucalipto dançando na parede branca do quarto.
Um garoto, que não deve ter mais do que 11 anos se diverte apontando um laser pointer contra minhas janelas. Na sala, minhas janelas são janelões, ornados por eiras que não constituem uma sacada, mas promovem grande visibilidade aos interessados na vida alheia. Paranóica, eu grito da janela, e o coitado, apavorado, talvez com a bronca que vai receber de sua mãe, se aproveita da noite, e se esconde atrás do biombo da sala escura, e então eu o perco de vista. Corre para a outra janela, agora a do quarto. E com a luz completamente apagada começa a passear sua luzinha vermelha pelo armário da minha TV. ¿Filho da Puta¿, eu penso. E resolvo apagar a luz. O Gui, com uma idéia magnífica, pega sua super câmera fotográfica e tira várias fotos. O flash assusta o menino, mas agora temos a verdade documentada.
Acredito que ele tenha ficado com tanto medo que nunca mais fará isso. Ou não. Delícia é essa inconseqüência juvenil, como quando eu ia visitar minha vó no oitavo andar de um dos únicos prédios de Pindamonhangaba e atirava bexigas d¿água no povo que andava pelas ruas do centro de noite.
Da minha janela vejo telas nas paredes dos prédios, como as telas de minhas lembranças fragmentadas, unindo-se umas às outras apenas pela fantasia de uma criança que quis crescer cedo demais.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:


Terça-feira, Abril 03, 2007

Deep... quem foi sabe, nem vou descrever...
Participação especialíssima de Daniele Andrade: http://www.fotolog.com/hirid_vock -------- É ver pra crer... Nóis sabe o que faiz...


°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:




arquivo