°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Sábado, Maio 19, 2007

A matemática persiste em aparecer a todo instante em minha vida.
Por exemplo: não me canso de me surpreender com o fato de que a soma ¿bom haxixe¿ + ¿boa música¿ x (multiplicado por) ¿Dirigir pelo trânsito de São Paulo¿ sempre resulta (=) em Inspiração. Ou como minha amiga Daniele costuma grafar, ¿Ins.piração¿.
Para explicar melhor está lógica aritmética, recorrerei ao recurso narrativo de sempre, interpelado pelas minhas ¿considerações pessoais acerca da realidade¿.
Esta historieta começa assim:
Tenho como um valor em minha vida que uma das coisas mais gostosas é quando, depois de passar o dia inteiro com uma música na cabeça, na hora em que eu decido escutá-la, acabo por constatar que ela, de fato, é melhor ainda do que aquela versão mental que ficou tocando o dia inteiro na sua trilha sonora minha cabeça. É verdade que muitas vezes o que acaba acontecendo é o contrário: a música que ficou na minha cabeça é do Belchior, e escutá-la só pioraria a situação. Muitas outras vezes acontece de a música que fica na minha cabeça é a trilha sonora do jornal da rádio BandNews, aí é que complica, pois é aquela música ¿entre-meio¿, que não tem começo nem fim, é só um BG (musica de back ground) de baixa qualidade.
Em meio a estes devaneios, eu conto uma história. A história da música que ficou na minha cabeça hoje, que diferente de Belchior ou BandNews, é música sem letra e sem lógica. Bem, pelo menos sem lógica aparente. Voltamos à matemática a seguir.
Pois bem, é uma música de um projeto que se chama Exploding Plastix (www.xplodingplastix.com), e tem um estilo de som que só tenho capacidade para classificar como música eletrônica, ou no máximo como IDM (intelligent dance music).
E lá estava eu, tentando cantar uma música que não tem letra. E fiquei... e fiquei... me pegando a toda hora nos momentos de mais distração ou de mais automação cantarolando o único segmento cantarolável da música, lembrando mais da sensação do que do próprio som.
Então, chegada a hora de ir para a faculdade, me preparo já imaginando o caminho pela frente: dois pegas num baseado de haxixe antes de ir. O suficiente pra viajar pelas ruas de São Paulo sem ficar passando mal nem distraída demais com as luzes que geralmente atraem minha atenção.
Pois bem, entro no carro e ligo o som: BandNews maldita! Aquela BG, e seu locutor ansioso anunciando ¿126 quilômetros de trânsito neste começo de noite na cidade de São Paulo! A média normal pro horário é de 98!¿. Suspiro. Sempre problemas! Eu vim preparada pra isso. Escuto alguns segundos de BG e locutor ansioso antes de lembrar da música, de novo.
Não perco tempo. Antes mesmo do primeiro engarrafamento, pego correndo minha disqueteira do Bob Esponja e corro atrás do Exploding Plastix. Engraçado, é o primeiro CD que eu vejo, e olha que eu abri a disqueteira bem no meio, aleatoriamente. O universo ¿cons.pira¿ para que eu ouça você, musiquinha.
E lá vou eu, procurando a Track no player. Achei, é a oito. Começa. É... realmente a música é boa... Nossa é boa mesmo! É boa demais! E daí em diante agente acaba esquecendo de avaliar a qualidade e a técnica do artista, e as imagens mentais ocupam o lugar do raciocínio.
Olho para os prédios. As formas retas do concreto parecem emanar as batidas que eu ouço. Enquanto o trânsito começa a dar sinais de fluidez, as janelas desses gigantes refletem as luzes dos faróis formando gráficos equalizantes, passeando pelas faces das construções no ritmo da batida, absolutamente descompassada e maluca, imitando o ritmo do próprio trânsito da cidade.
Do estimulo visual do caminho que sigo, transporto-me para minhas próprias fantasias, mais ou menos sempre iguais, de eu mesma dançando ao som destas músicas que trilham minha trilha pelas ruas de São Paulo. É tão intensa, que sinto realmente meu corpo dançar. Ele dança por dentro, e fica inevitável arriscar uns balanços e chacoalhos, que me constrangem quando sou flagrada por algum motorista vizinho enxerido.
Da pista de dança da minha imaginação, volto novamente para o racional. Agora penso em escrever. É sempre assim. Eu escrevo mentalmente tudo de curioso que me ocorre, e muitas dessas histórias nunca terminam se realizando neste singelo blog.
Esta eu não podia perder. Eu tinha muitas coisas na cabeça. Algumas já ficaram pra trás à alguns parágrafos.
Agora, volto à matemática.
Já é de conhecimento, até mesmo científico, que existe uma relação profunda entre música e matemática. Existem inúmeros trabalhos acadêmicos, desde muito antes do surgimento da música eletrônica, que relacionam e comprovam que a base que constrói a música é, invariavelmente, matemática. Desde a música indiana, extremamente complexa em sua célula rítmica, até mesmo os grandes clássico da musica erudita, como Bach ou Wagner.
Ouvindo a música eletrônica que eu chamaria de ¿tradicional¿, essa relação fica evidente, com seus compassos ¿quadradinhos¿, e suas progressões elementais bem pontuadas. Já no estilo de música eletrônica que eu particularmente aprecio, o 4x4 que se espera de um ¿poperô¿ fica defasado, e as progressões são mais descontruções e reconstruções do que qualquer outra coisa.
Desta maneira fica claro que a aritmética da tradicional música ¿de pista¿ vira brincadeira de criança perto dos cálculos da probabilidade do caos usado nas variações, variando a cada Tempo. Caos este muito bem organizado, já que, no fim das contas, mesmo dando essa ilusão de bagunça total, ao final dos contados oito Tempos da batida, você pode com certeza esperar uma virada, mas no próximo Tempo da música sabe-se lá Deus o que irá acontecer.
E é por isso que eu AMO essa nova música eletrônica, como o IDM, a Free eletrônica e todos esses outros gêneros que embarcaram no experimentalismo comercial, cheios de glitchs e clicks e barulhos de CD riscado pulando. Acho incrível a maneira como esses artistas fazem músicas belas e altamente estimulantes a partir do que, para todo mundo (inclusive pra mim) é considerado erro, um defeito, como a própria palavra ¿glitch¿ quer dizer.
Pra mim, essas músicas são matemática pura. Mas em vez de números estéreis e sem nenhuma personalidade, os números desses sons têm toda uma gama de tonalidades, mexem com a minha fantasia, desafiam a minha ingênua tentativa de prever e dominar o que vem a diante.
Eu sinto que esses artistas têm total propriedade em sua obra. Você não manipula o que está ouvindo, porque mesmo que você conheça bem aquela música nunca sabe exatamente o que está por vir no próximo segundo da canção.
Enfim. Eu ouvi a música quatro vezes. A primeira vez quando pus o CD no player, a segunda quando na ordem natural das tracks do álbum, a terceira depois que ouvi a segunda, e a quarta quando eu voltava pra casa, quase na entrada da garagem.
Um fato curioso (e inútil) é que quando eu estou ouvindo uma música que me envolve naquele momento no carro, ao chegar ao meu destino eu espero a música terminar, vivendo aquele momento intensamente, do começo ao fim, até mesmo aquela depressãozinha quando termina meu videoclipe mental.
E foi assim que esta história terminou: com sua blogueira Alice*, já careta depois da aula, inspiradíssima, sentada no frio deserto de sua garagem subterrânea, esperando a música terminar.
Quem quiser ouvir a música, me mande um email no psyraca@yahoo.com.br . Eu envio ela pra você.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:




arquivo