Quinta-feira, Julho 05, 2007
Me fala que você me conhece
A vida da praça é de passagem. As pessoas simplesmente passam, todo dia. Você acredita conhecer as pessoas que cruza pelo seu dia-a-dia, mas a verdade é que você nunca pára para conversar realmente com ninguém.
Na minha praça a vida é ativa. E variada. Sua fauna é predominantemente canina, com seus passarinhos servindo apenas de alegoria ou presa para os cães enclausurados nos apartamentos ao redor.
A população da praça alcança uma larga escala de idades. Tem crianças, adolescentes, adultos e velhos, todos passando, com seus cães ou suas cadeiras de roda carentes de rampas de acesso.
As crianças estão sempre acompanhadas, seja pelos pais, tios, irmãos, ou pelas babás de mamães pouco funcionais que não pegam seus filhos no colo ou não empurram o carrinho pela praça. As crianças gostam da minha cadela. Minha cadela adora as crianças, e pula nelas sem escrúpulos, lambendo e abanando seu rabinho sem parar.
Os clubes ao redor trazem muitos adolescentes, não importando a hora do dia. De tarde se esparramam pelos bancos em grandes grupos. Conversam alto, riem alto, e ficam em silêncio quando passo com a minha cachorrinha. Os adolescentes não conversam, eles apenas falam de si mesmos.
Os adultos compõem o cenário mais variado, não apresentando grandes padrões, a não ser o padrão de educação e gentileza, marca que permeia o bairro por mais estranho que possa parecer nas ruas de São Paulo. Os adultos homens aproveitam a oportunidade canina para olhar seu decote ou sua bunda quando você abaixa para pegar o cocô do cão. Os adultos porteiros/seguranças/vigias não ficam atrás, mas estes parecem mais interessados no cão em si do que em mim, ou pelo menos aparentam, mas pode ser que a técnica já esteja tão desenvolvida que o dissimular do descaramento passe despercebido pelas donas de cachorro do bairro. As adultas mulheres gostam de conversar um pouco, mas como o resto, passam correndo, ou para levar o cão de volta pra casa, ou para voltar para o escritório depois do descanso no banco da praça.
Os velhos são uma atração à parte. Me sinto particularmente atraída pela população da terceira idade da praça.
Dona Bete mora sozinha no prédio em frente ao meu e tem um poodle marrom chamado Bruno. Ela é muito simpática e gosta de bater um papo. Não me permite que a chame de senhora. Extremamente lúcida e independente, o passeio diário na praça parece ser seu ponto alto do dia, e ela costuma passar horas com Bruno no banco bem em frente da entrada do meu prédio, e todo mundo pára pra conversar um pouco com ela. Acho que foi a maneira que ela descobriu de acabar um pouco com a solidão de quem já viveu mais do que a maioria.
Tem um senhor, desses bem carrancudos e todo branquinho, que passeia com seu poodle também todo branquinho, e não gosta muito de papo. Ele fica um pouco tenso quando a Pilica se aproxima de seu cão, e sempre eu sorrio e faço alguma brincadeira, mas deste mato já percebi que não sai cachorro.
Tem um outro velho, esse na cadeira de rodas, que passeia de vez em quando com suas enfermeiras e fisioterapeutas. É possível notar que este sofreu um derrame com seqüelas graves, e que não gosta de cachorro. Quando venho em sua direção, ele se encolhe na cadeira, cercado de belas mocinhas que riem e falam: Ih... bem o senhor que não gosta de cachorros... Pilica não tem distinção, ela cumprimenta goste ou não de cachorros. Uma cheiradinha no pé de pantufas e ela está pronta para virar a próxima esquina.
Agora, o que mais me impressionou e por isso resolvi escrever este texto é a Dona Beatriz.
A dona Beatriz aparentemente tem Alzeimer. Ela está na cadeira de rodas, tem duas enfermeiras, não sorri, e nunca falou comigo. Mas hoje foi diferente.
De longe eu vinha da rua que termina na praça com minha cadelinha, esperando que ela fizesse um cocô logo para que eu voltasse pra casa. Nada de cocô.
De longe, dona Beatriz me viu, e eu percebi que ela apontava para mim. Resolvi ir até ela, na esperança de conversar, pela primeira vez.
Quando me aproximei, desesperada ela agarrou minha mão. Vi em seus olhos o desespero de quem não se lembra nem de quem é. Sem nenhum dano de linguagem, dona Beatriz diz: Me fala que você me conhece. Você me conhece?
Eu respondo que nós sempre nos encontramos quando passeamos pela praça, todo dia. Portanto eu a conheço da praça.
Ela diz desesperadamente que a enfermeira dela disse pra ela que não a conhecia. Eu entendo que provavelmente em sua confusão tenha criado esta idéia.
Ela perguntou se eu morava com ela. Eu disse que não, mas que era vizinha, apontando para a sacada do meu apartamento.
Dou minha mão para dona Beatriz. Ela a segura ansiosamente, seu queixo bate por causa da falta de controle dos músculos.
Ela perguntou se eu iria na casa dela, ou ela iria na minha. A esta altura, a enfermeira parecia constrangida e começou a responder por ela. Resolvi sentar no chão, tirei as luvas dela, e comecei a tocá-la, já que com pacientes de Alzeimer às vezes o toque é a única coisa que lhes resta.
Muito do que ela falou não fez sentido, mas eu senti o desespero que ela sentia em querer que eu a conhecesse. Pelo jeito ela já não deve lembrar de ninguém, nem dela mesma, então o que lhe resta é sair por aí perguntando quem ela é.
Ela me fez prometer que amanhã eu iria encontrar ela e diria que a conhecia. O mais estranho é que ela disse exatamente assim: Então amanhã quando você me encontrar você me diz que me conhece? Me diz quem eu sou?
Quem nos diz quem somos nós? Imagine o pesadelo de não se ter acesso a mais nenhuma lembrança. E é claro que são as lembranças os principais indícios de quem nós somos. E como faz dona Beatriz? Como ela acorda todo dia? Será que todo dia é como se fosse a primeira vez? Se ela olha no espelho, é aquele reflexo vazio e irreal que diz quem ela é?
Me diz que você me conhece. Meu blog não me diz quem eu sou. Meus pais também não, nem o Gui, nem meus amigos, nem a sociedade. Ora, nem eu me conheço, nem depois de seis anos de terapia eu me conheço. Na verdade, demorou a metade desse tempo em terapia pra eu poder admitir que eu não me conheço. Será que na verdade alguém se conhece mesmo? Se sim, que grandes emoções teria a vida se você se conhece? Se você não se surpreende consigo mesmo?
Eu acho que conhecer não é nem relativo, é impossível. Nós conhecemos as coisas em tantos níveis diferentes, ou em camadas, ou em etapas... Nunca se chega ao cerne das coisas. Aliás, como Einstein já havia dito, quanto mais se conhece mais se constata a nossa ignorância.
Acho que quando agente afirma que agente conhece profundamente algo ou alguém estamos nos enganado, colocando barreiras e limites para a nossa capacidade de mergulhar. É claro que existem pessoas que conhecem mais ou menos sobre um assunto ou pessoa, mas ninguém conhece absolutamente tudo de alguma coisa em específico. Admitir a ignorância é um desafio, mas é uma conquista quando realizado. Infelizmente são poucos os momentos em que realmente eu sinto que não conheço algo, mas quando isso acontece, nossa, quanto aprendizado.
E afinal, pra quê estamos aqui senão pra isso, não?
°Sagazz no Teatro Mágico°
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