°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Este texto é inaugural de uma série que pretendo fazer de contos infantis para adultos. Espero que se divirtam.

A mulher que não podia se olhar no espelho

Era uma vez uma mulher que não podia se olhar no espelho:
- É, eu não posso me olhar no espelho.
Mas não era só no espelho que ela não podia se olhar:
- Sim, não só no espelho, mas em qualquer coisa que reflita minha imagem: Vidros, metais, superfície da água, testa de homem careca...
Por causa disso a mulher não podia fazer uma série de coisas:
- É verdade. Eu não posso dirigir, nem olhar vitrines, ou ir na academia, tampouco namorar homens carecas e muito menos espremer uma espinha por mim mesma.
Desde de pequena ela tinha esse problema. Seus pais descobriram isso quando ela tinha cerca de dois anos, que é a época em que as crianças começam a notar os espelhos e já começam a discernir a imagem refletida naquela lisa e fria superfície de si mesmas.
- Quando ela tinha uns dois anos de idade nós encontramos ela caída no chão, dormindo profundamente bem em frente ao espelho do closet do nosso quarto.
Para evitar esse súbito acesso de sono que aconteceu seguidas vezes antes que constatassem a fonte do problema, os pais da mulher apelavam para inúmeros subterfúgios:
- Quando agente percebeu que o problema eram os espelhos, tomei algumas providências no intuito de manter nossa filha acordada. Minha primeira providência foi cobrir todos os espelhos da casa com cortinas. Quem quisesse se olhar teria que levantar os panos.
As conseqüências deste triste mal começaram já desde cedo.
- Ela não podia escovar os dentes sozinha se olhando no espelho, como toda pessoa normal. Nem podia apreciar as roupinhas novas que a minha mulher comprava pra ela. Também não podia andar na rua olhando os carros estacionados no meio-fio, pois caía no sono no mesmo instante.
Um belo dia os pais resolveram levá-la a um psiquiatra especializado em fobias.
- O médico nos disse que ela tinha fobia aguda de espelhos com reação narcoléptica anti-onírica, sei lá o que isso quer dizer. O que acontecia era que se ela visse o próprio reflexo ela caía na hora, dormindo um sono sem sonhos, e nunca lembrava o que tinha acontecido depois.
Ainda se ela sonhasse, tudo bem. Mas quando caía no sono, era um sono meio inútil, sem produção mental nenhuma, sem imagens, sem emoções.
- Parecia que ela se refugiava sempre que se via.
Quando a mulher que não podia se ver no espelho cresceu, ela já havia se acostumado com sua condição, e não via grandes problemas em ser a mulher que não podia se olhar no espelho. Já morando em sua própria casa, construiu seu pequeno universo irreflexo de acordo com suas necessidades especiais. Sua pia do banheiro localizava-se bem debaixo de uma janela, e enquanto realizava seus rituais matinais, olhava o movimento da rua lá em baixo.
- Mesmo na minha condição, consegui construir uma carreira razoável. Sou especialista em revelação fotográfica manual. Me adaptei bem a este ambiente pois é sempre escuro e não sobra nenhuma oportunidade para refrações de luz em superfícies refletoras.
Para cuidar de sua aparência ela tirava fotos de si mesma. Mas enquanto o advento da fotografia digital não chegava, era muito mais complicado:
- Quando eu tinha cerca de onze anos meu pai me deu minha primeira câmera fotográfica. Eu pedia para ele tirar fotos para eu poder ver meu cabelo. No meu primeiro bailinho da escola minha mãe e eu fizemos uma maratona de loja em loja durante duas semanas, experimentando vestidinhos e tirando fotos, para ver qual roupa eu usaria.
O lance da revelação das fotos começou se tornar um problema quando a mulher começou a experimentar uma demanda de intervalos menores entre o tirar a foto e analisar o resultado.
- Foi por isso que, aos treze anos, eu entrei num curso de fotografia com o objetivo de aprender a revelar. Meu pai havia me prometido uma sala-escura no banheirinho de empregada do apartamento. Desde então eu fiquei craque em revelação e consegui me firmar no mercado. Sinto muito orgulho disso, muito mesmo, orgulho demais...
Sim, sim. Como você pode observar, a mulher começou a ter muito orgulho de si mesma, muito mesmo, orgulho demais.
- Na verdade, nós, como pais dela, não podemos fazer grandes críticas. Mas a verdade é que ela sempre foi orgulhosa demais, metida mesmo. Minha mulher falava às vezes, de noite na cama, que ela era egocêntrica, seja lá o que isso quer dizer.
À esta altura da história devemos admitir que a situação da mulher que não podia se olhar no espelho não era nada fácil. No entanto, a mulher que não podia se olhar no espelho se olhava a todo instante. Nunca conseguia permanecer num relacionamento por muito tempo. E por mais incrível que pareça, não era por causa de sua peculiar condição:
- Eu namorei a mulher por alguns meses apenas. À princípio ela me parecia bela, e sua condição não atrapalhava em nada nosso relacionamento, mas eu desisti por não me conformar como uma mulher que não pode se ver no espelho seja tão auto-centrada.
Na questão de seus relacionamentos, muitas histórias embaraçosas cruzaram seu caminho.
- Como naquela vez em que levei ela num motel para uma noite romântica regada à espumante e morangos. Reservei a melhor suíte. Queria mimar ela. Mas assim que ela entrou no quarto do motel já percebi sua tensão.
- Eu nunca havia estado num quarto de motel. Achei tudo muito lindo e romântico. A cama em forma de coração, a champanhe, os morangos. Quando fui experimentar a cama apaguei.
Desinformada, a mulher que não podia se olhar no espelho estava no paraíso do reflexo. Ao se ver no espelho do teto, dormiu instantaneamente. E o que seria uma noite de amor memorável e com direito e pedido de casamento transformou-se em mais um branco em sua mente.
- Talvez eu seja muito areia pro caminhão dele, porque ele nunca mais me procurou.
A mulher que não se olhava no espelho se achava. Não no sentido literal da palavra, mas no sentido coloquial. Ela se achava a última bolacha do pacote, tinha plena convicção de que era tão linda quanto a Gisele e tão inteligente quanto Simone de Bouvoir.
- Eu não ligo de ter tido tantos relacionamentos fracassados. A fila tem que andar. Não foi culpa minha esses relacionamentos terem terminado, foi culpa deles.
Era sempre culpa deles. Culpa dos pais, culpa da professora, culpa do cara que não sabia pegar direito no seu cabelo. A mulher que não se olhava no espelho achava que o mundo girava à sua volta.
Um dia a mulher notou uma estranha protuberância num local pouco adequado em seu corpo. Na região dos "países baixos", bem na curvinha do encontro de sua nádega esquerda com a esquina da avenida São João em frente à padaria havia uma espécie de espinha, ou furúnculo, ou um alien encubado.
- Como eu resolveria esse problema? Eu não tenho namorado, e não pedirei aos meus pais para averiguarem minha caverninha... Tentei tirar fotos, mas a escuridão é tanta, é tudo tão vasto e profundo e misterioso lá...
O jeito era pegar um espelho. Era questão de vida ou morte:
- Então eu fui até a farmácia da esquina e comprei um espelho. O cara da farmácia deve ter estranhado quando eu pedi que não me mostrasse o espelho.
O funcionário da farmácia já havia ouvido a história da mulher pentelha que morava no edifício Girassol, lá da esquina. Quando a estranha mulher que atendia pediu que enfiasse rapidamente o espelho no saco de papel, ele pediu um minuto e entrou pela porta onde lia-se "Somente funcionários".
- Eu entrei correndo e chamei todo mundo para ver a mulher que não podia se olhar no espelho. Meus colegas se espreitavam na fresta da porta enquanto eu chacoalhava o espelho na frente dela, e ela proliferava palavrões escabrosos. Não tivemos a oportunidade de vê-la transformar-se na loira do banheiro, mas foi o suficiente para comprovar a história que eu tinha contado e ninguém acreditava.
À essa altura a lenda da mulher que não se olhava no espelho já havia tomado moldes de lenda urbana, e em vez de narcolepsia, a mulher possuía um alter-ego assassino e cadavérico.
Chegando em casa a mulher rumava para o que seria o momento mais importante de sua vida.
Tirou as roupas e sentou na cama com o pacote da farmácia na mão. Seu coração palpitava. Espalhou suas pernas por todo o ambiente. Naquele momento suas pernas pareciam tão extensas quanto o rio São Francisco. Tateando dentro do pacote ela identificou o lado do espelho que refletia. A superfície fria a lisa indicava seu fim, e seu começo. Seus pêlos da nuca arrepiaram.
- É agora ou nunca.
Era hora de ver-se, desbravar seu interior.
Removendo o espelho do pacote com a face voltada para baixo, a mulher que não podia se olhar no espelho virou sua cabeça para o lado direito, franzindo a testa, desviando como quem desvia de um cheiro ruim.
Agora com as pernas para o alto, a mulher tentava mirar no alien encubado numa esperança vã de que se ela simplesmente apontasse o espelho para a região afetada o alien desapareceria como um passe de mágica.
- Mas não é isso que acontece na minha história.
O que acontece é que o simples apontar do espelho não funciona, então ela decide encarar a verdade.
Numa pose meio Kama-sutra de bruços com leve contorção de pescoço e braços que iam e vinham a mulher apontou o espelho e olhou.
Mas o que ela viu não foi uma brotoeja avermelhada esperando para ser espremida e sim uma placa de sinalização.
- "vire à direita" dizia a placa, com uma seta apontada para a entrada de um abismo.
- Ok, Ok, eu pensei. Vamos lá.
A mulher que não podia se olhar no espelho pela primeira vez na vida se olhava sem cair no sono. O objetivo de se olhar naquele momento passou de ser uma preocupação séptica para se tornar uma expedição rumo ao desconhecido. Ela seria a primeira mulher a mergulhar num abismo dentro de seu próprio corpo em toda a história da espeleologia.
Então ela foi, ou melhor, ela olhou, e na entrada da caverna milhares de rebarbas de pedra e carne adornavam a escuridão úmida de sua selva de pêlos. Sua paisagem interna era magnífica, sentia-se descobrindo o diamante mais valioso da floresta do Congo.
A verdade se revelou suave. Sua beleza era de carne e profunda como a flauta de um Sufi. Sentiu-se bela e ao mesmo tempo tétrica. Sua exploração mal havia começado e ela já sentia que era hora de parar.
- Depois do torpor todo eu comecei a lembrar o que eu estava fazendo ali. Quando notei o espelho na mão soltei-o rapidamente.O espelho se partiu, e uma estrela se formou em seu centro. Eu não tinha mais medo de mim, ou de minha natureza, e olhar no espelho não foi mais uma dificuldade pra mim. Eu percebi o mundo a minha volta à partir do meu centro, e agora eu me sinto pequena, e com vontade de pedir desculpas pra todo mundo. Eu entendi que o meu medo do meu próprio reflexo era como uma reação contrária a minha superficialidade. Meu reflexo reflete, e eu acho que na verdade eu não queria refletir sobre nada. Minha anestesia acabou se transformando em minha dor.
Agora eu posso dizer que aquela imagem no espelho, mesmo não sendo real, é sim uma representação de mim, e mim é algo pequeno demais.
Moral da história: às vezes é preciso olhar dentro para enxergar o que está fora.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:




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