°Alice No País do LSD°

"Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a algum casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do Medíocre, do Normal, do Acomodado"



Domingo, Novembro 16, 2008

Tô pra postar esse texto a quase um ano, empacada no meio. Tendo um começo e um fim, mas não um meio. Eu sei que faz muito tempo mesmo que não posto, mas é porque não escrevo. E não escrevo, mas é porque não tenho nada pra dizer. "É que eu estou primeiro lendo para depois escrever." (Waking Life)


1º ato – Contexto

Não há um dia sequer na minha vida que eu não passe sem pensar na morte. A morte como conceito, como certeza única da realidade humana, mas principalmente, como verdade Minha. Nos espaços vagos entre iniciar uma ação e me pegar totalmente imersa na masturbação mental do meu repertório diário, minha indagação começa, se encerra, e recomeça.
E recomeça... Não há um dia sequer que eu não passe sem pensar na morte, mesmos nas horas mais ingratas do dia. Ao acordar, escovando os dentes, passando manteiga no pão... Sinto um amortecimento na nuca, seguido de uma dor de cabeça incisiva: ‘É hoje! Sem aviso, me despeço do mundo com um acidente vascular enquanto passo a manteiga no pão!’.
Cada cigarro é um minuto a menos. Sinto meu coração palpitar depois da deliciosa última tragada... Jogo a bituca no cinzeiro com pontadas agudas no peito, sob a ilusória proteção do termo ‘gases’ no meu vocabulário. Penso: “É gases!”, batendo com o punho cerrado no peito, me esquivando da culpa pelo vício no tabaco.
Quando eu fumo um baseado então, parece que vou morrer a qualquer instante. Um zunido no ouvido, falta-me o ar, sinto calores em regiões inusitadas, tipo no cotovelo... E ainda por cima a culpa pela possibilidade de morrer depois de fumar maconha... Que estupidez!
O meu fascínio com a morte é quase fetichista. É como aquela glória do cristão de fé, que acredita que quando morre vai descansar no “seio” do Deus Todo-Poderoso. Eu já acho que quando eu morrer as coisas vão se suceder da seguinte maneira:

2º ato – Replay

Bom, imaginemos então que eu morri do tal acidente vascular passando manteiga no pão, depois de escovar meus dentes pensando em como seria quando eu morresse. No meu roteiro, no roteiro que eu escrevi pra minha última grande cena, eu morri, primeiro o corpo todo, e por último o cérebro. E esses cinco, seis segundos antes do meu cérebro ir pro saco eu vivi tudo isso aqui de novo, tudo. A minha vida inteira, em poucos segundos. Só que dessa vez tudo que eu desejei, tudo que eu quis, mesmo que meio que por querer, se realizou. Era de se esperar: Eu não fui feliz, morri sozinha, e acabei com um monte de merda se acumulando no porãozinho gélido que é a minha alma... A iluminação é uma enganação!
Na próxima fase, um vídeo do tipo institucional se apresenta para mim, como uma espécie de guia-post-mortem-do-além. No logotipo no canto da tela lê-se a sigla CEU (ce, ê, u: Céééú) – Companhia Estelar Universal – seguido da seguinte frase: ‘Fazemos transportes de cargas, translados e transmutações’. Uma mulher de outro mundo fala flutuando no éter de uma imensidão tão branca... Índios cavalgam em seus enormes cabelos esvoaçantes... Um cálice de ouro brinda a minha chegada com cogumelos de cores inimagináveis vertendo sob meus pés...

3º ato – Nirvana

Com uma voz de locutora de propaganda de xampu, aquela majestosa figura me saúda como quem anuncia a promoção da semana no supermercado:

- ‘Parabéns! Se você está assistindo a esta simulação é porque você acaba de morrer! Seja bem vindo! Para sua maior comodidade e para evitar maiores confusões, este vídeo foi feito para que você, recém-partido, possa aproveitar a maravilhosa experiência post-mortem com mais tranqüilidade.
Primeiro gostaria de esclarecer algumas concepções errôneas que você poderia ter tido durante sua estadia na morada humana:
1 – Deus existe, Ele não gosta de religião e adora um futebol society quinta à noite, seguido de um churrasquinho com os amigos.
2 – A vida tem sim um sentido: em sentido à morte. Não entendeu? Então tá, imagine que você vai fazer uma viagem. Ela tem um ponto de partida e um ponto de chegada não é? Então, você sai do ponto de partida SENTIDO ponto de chegada, não? Então qual é o sentido da vida? O sentido é em direção à morte, oras! Muito simples, não? O que nos leva ao terceiro item:
3 – A experiência humana na Terra é simplesmente um encantamento produzido pelo Tempo. Podemos observar isso claramente ao retornarmos ao item anterior, que faz uma analogia rudimentar da vida como uma linha, com um ponto de partida e um de chegada, e é somente nesta linha que expressamos os desejos e particularidades que estão envolvidos no conceito de Ser. Porém lembre-se, é um en-can-ta-men-to, não uma realidade, bobinha! E isso significa o que? Que há uma ilusão de experiência, e, portanto, de individualidade. A verdade é simples: tudo é Um (com U maiúsculo mesmo), um é o Todo, e você não foi, não é, e nunca será Um Ser, e sim uma Expressão do Ser...’ (interrompido drasticamente).
Bem no meio desta frase as coisas com certeza começariam a tomar o rumo que me interessa mais, mas inicia-se aí uma confusão. E o seguinte começa a ocorrer a esta Expressão do Ser Confuso que vos fala: aquela entidade espectral que boiava no telão fantasmagórico começa a falar em uma língua magnífica, e por um momento, em minha vã prepotência, eu acredito estar compreendendo. De repente, mais repente que num sonho, as línguas loucas escapam de meus precários filtros, e a absorção de informação torna-se comprometida. A comunicação deixa então de ser verbal, para escorregar por entre meus dedos como imagens, ou telas mentais, além de muitas sensações esdrúxulas. Então começo minha viagem, sem ainda perceber o engodo que estou protagonizando: Vejo um túnel que se abre embaixo da terra. Ironicamente, ascendo. Subo, subo... Lançada no espaço com toda a força que eu poderia imaginar, meu corpo dobra-se ao meio. Fico do tamanho da minha coragem. Desdobrando-me em milhões de pedacinhos, me espalho por um mar infinito e ansioso. Enquanto fujo de mim mesma e dos outros milhões de pedaços de mim que deixo pra trás, vejo a luz no fim do túnel. É Deus, e a Grande Mãe toda branca, e eu corro para cumprir minha natureza em direção ao que eu esperava, tolinha, ser A Grande Única Verdade...
Todos os outros pedaços de mim ficam pra trás... Eu vou esquecendo de quem eu era antes e depois de morrer... Vai batendo um soniiinho, o ambiente é aconchegante... Eu vou vivendo naquele balanço, naquela moleza... Dá uma vontáááde de deitar na rede...
Aí de repente fica tudo uma locura, aquela confusão... Dá uma impressão que agente vai morrer... Nessas horas eu até já esqueci que eu já tinha morrido faz tempo... Aí é mó gritaria, gente arrancando os cabelo, um cara desmaia, é sangue pra todo lado... Num agüento mais ficar aqui, é muito apertado, preciso respirar (quer dizer, aprender a respirar). Vem um maluco e me puxa, tem uma maldita luz forte pra todo lado. Eita porra! Dá pra diminuir a luz aí? Ai, cacete, tão me pegando de todos os lados! Ai que apertado! Ai que apertado! Ai! Ai!.........
Agora vem o momento pelo qual eu acho que ninguém nem lembra mais do trauma do nascimento: Aquela Teta imensa vertendo leite... Aquele orbe, aquele planeta... É a pura manifestação do amor, o clichê dos clichês...
Então a Teta se aproxima. Meu corpinho malformado começa a reagir. O coração bate aceleradamente. O momento se aproxima, o Nirvana, o gozo do Freud! O mamilo se mostra, o bebê gosta, e assim se dá o êxtase definitivo da vida de um ser humano: A Teta na boca, o bebezinho suado, sugando, gozando seu primeiro e último prazer na vida. Isso sim é a verdadeira vida-eterna-no-Seio-de-Deus!
Só mal sabia eu que o guia post-mortem e a teta na boca ainda faziam parte daquela viagem dos últimos segundos antes do meu cérebro ir pro saco.

°Sagazz no Teatro Mágico° Comentários: só para raros...só para loucos:




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